1.11.07
29.5.07
Na rua
Nos filmes sempre tem uma caixa, o homem - nunca é mulher, sempre é homem - esvazia uma montanha de gavetas e bota tudo no caixote de papelão. Na vida real, depois do choro no banheiro e dos olhares compungidos, não há gavetas a esvaziar, o que se deixa no escritório é o que nunca deveria ter saído de lá ou o que jamais poderia ter entrado. Fotos de filhos, plantinhas, coisa mais menininha, mulherzinha, quis trabalhar, agora agüenta.
Você é feia, linda, jovem, mal humorada, repeliu o chefe, não foi alvo de cantata alguma, envelheceu, casou, ficou solteira, teve filho, descasou, organizava as festas de aniversário da repartição, enviuvou, sustenta família, mas nunca será chefe de família a ponto de comover o patrão e ser poupada no corte. Nunca passou por isso antes? Já houve uma primeira vez, então, engole em seco, a sensação é a mesma em todas elas.
O vazio, o desconforto, o temor, a perda da identidade, toda aquela enxurrada de terminologia que encerra apenas a frustração por não conseguir permanecer em segurança. Sua culpa é seguir o mundo, fingir que trabalha por ideal, que escolheu sua profissão, escolheu sua independência. Veste a couraça, sobe no salto alto e segura o tranco da pancada no peito ao ouvir "vamos ter que dispensar você".
O que seria empilhado na caixa de papelão do filme americano vai caber na sacola plástica de uma boa loja de griffe que a colega que manteve o emprego arranjou. Ao menos não é sacola de supermercado. Na rua ninguém identificará o desespero, a desesperança, a nova queda.
Publicado no www.anjosdeprata.com.br
Você é feia, linda, jovem, mal humorada, repeliu o chefe, não foi alvo de cantata alguma, envelheceu, casou, ficou solteira, teve filho, descasou, organizava as festas de aniversário da repartição, enviuvou, sustenta família, mas nunca será chefe de família a ponto de comover o patrão e ser poupada no corte. Nunca passou por isso antes? Já houve uma primeira vez, então, engole em seco, a sensação é a mesma em todas elas.
O vazio, o desconforto, o temor, a perda da identidade, toda aquela enxurrada de terminologia que encerra apenas a frustração por não conseguir permanecer em segurança. Sua culpa é seguir o mundo, fingir que trabalha por ideal, que escolheu sua profissão, escolheu sua independência. Veste a couraça, sobe no salto alto e segura o tranco da pancada no peito ao ouvir "vamos ter que dispensar você".
O que seria empilhado na caixa de papelão do filme americano vai caber na sacola plástica de uma boa loja de griffe que a colega que manteve o emprego arranjou. Ao menos não é sacola de supermercado. Na rua ninguém identificará o desespero, a desesperança, a nova queda.
Publicado no www.anjosdeprata.com.br
3.4.06
Canção da Mulher com TPM
Vivo sem consolo.
Entenda: eu preciso chorar, não se apavore.
Vêm a fome, a dor, o desespero.
Mas não dá pra morrer hoje, tenho tanto a ler, ainda não fui à Europa
Tomara, tomara mesmo que não dê praia amanhã, eu não quero ir, seria tão bom dar uma caminhada na Cláudio Coutinho, a televisão é uma merda no fim de semana, esse livro é um porre e não tem nada que preste no cinema.
Nem dá pra sair direito, o elevador quebrou, descer é fácil, mas eu vou querer fazer supermercado na volta, eu sempre faço supermercado se saio e aí vai ser fogo subir, porque o porteiro, nessas horas, SOME.
O problema é que nessa casa tem um bando de vândalos esfaimados que saqueiam a geladeira, dá vontade de só ter água, não agüento, não agüento mais mesmo, estou farta de carregar o mundo nas costas.
Um dia, sei, vou estourar, todo mundo acaba pifando, coração não segura por tanto tempo, não. Estou na faixa crítica, nessa idade, enfarte é fulminante, sim. Detesto quem fala infarto, o alface, o brócoli, sabe? O Broccoli era o produtor dos filmes do James Bond, morreu, o único James Bond que desejei foi o Pierce Brosnan, que envelheceu e fez um filme daqueles pra mostrar que não tem o menor glamour, em que ator leva a câmera bem pra perto dos olhos pra aparecerem todos os vincos, as ruguinhas, como se dali saísse uma interpretação decente. O que ele tinha de melhor era a beleza mesmo, ora essa. Qual é o problema desses artistas que se firmam pela beleza e depois engordam duas toneladas pra ganhar Oscar? Os caras não conseguem ser bonitos e competentes? Aí, na hora de arrumar emprego, a gente tem que parecer bonita e bem disposta. Além de branca, claro, porque vai dizer que o Brasil não é racista, não.
Ai, viajei, viajei, muito mesmo. Nem me lembro por que veio essa história de James Bond na cabeça. Ultimamente, sofro uns brancos na memória. Particularmente, acredito que seja pré-Alzeihmer, porque eu não vou ter um fim tranqüilo, não. Ninguém tem. Descobri que sou muito negativa quando escrevo e cansei disso. Agora, serei pra cima, engraçada, motivadora, porque este foi o papel que a vida me reservou. Nas festas, sempre sou engraçada, animada, boba da corte, porque assim eu sobrevivo melhor.
Ah, era só o que faltava, está chovendo e agora não dá mais pra fazer nada. Vou ficar confinada nessa casa mesmo! Haja paciência, você vai acordar e começar a inventar de sair, de ir visitar sua mãe. Quem foi que criou a lei de que aos domingos se visita a mãe. Será que a gente não pode passar um só domingo quieto, dormindo, morgando, hibernando? Ler jornal na cama, café morno, sem tirar pijama. É bom, faz bem à saúde. Pra que essa obrigação de se movimentar o tempo todo?
Se você vier me perguntar se eu estou na TPM novamente, o que acha que eu vou dizer? Tudo pra vocês é TPM. Homem pode dar porrada, gritar, ser estúpido, que é masculino. Se eu faço o mesmo, estou na TPM. Até estou, mas deixa meus hormônios em paz que eu não quero nem saber que dia é hoje. TPM pra mulher é igual a cio de gata. Tudo escandalosa, mas no fim o que a gente quer é preparar o terreno pra se acalmar e abrigar mais gente dentro da gente.
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