Sem greve, sem caixinha de Natal, um fim de ano tão sem graça, cada vez mais sem graça, pensava Agenor. Mais de vinte anos correndo ruas na mesma região, conhecendo os moradores pelo nome, poucos pela cara, para quê? Ninguém manda mais cartão de Natal, nem cartas. Como é que se deixa o envelopinho com os cumprimentos de “seu amigo, o carteiro” se ninguém mais escreve carta?
- Eu me limito a entregar contas. E muita correspondência de cobrança.
- Como é que vc sabe se é cobrança?
O vizinho, Dionelton, entregava jornais na mesma área. Tivera a idéia de reunir os Arremessadores, como se intitulavam todos os que entregavam correspondência nas ruas próximas à São Clemente, em Botafogo. Anos antes, o grupo reunia quase quinze pessoas. Já haviam sido três entregadores de jornal. Além do Dionelton, tinha Carlão e Paulinho. Também faziam parte da corja o seu Lucrécio da farmácia, que tirava a pressão das velhinhas do 233 a domicílio, os três entregadores de pizza, Juninho, Wendson e Maicon Wagnertyson, Dona Marta, que distribuía quentinhas aos porteiros, dois meninos que trabalhavam em duas padarias concorrentes, Luciano e Tatiano, e ainda iam a Silmara, que era babá no 233 e namorava o Wendson antes que ele se casasse com outra namorada, a Dayenne, a própria Dayenne, o André, porteiro do 233, e o Tim Maia, dublê de segurança e porteiro da vila.
No início, os chopes só deveriam incluir os Arremessadores, ou seja, quem jogava a correspondência na caixa do correio ou no colo dos porteiros,porém Tim Maia soube do encontro e apareceu, de surpresa. Quem dera com a língua nos dentes fora a Silmara. Bem que haviam combinado de não chamar mulher, mas Wendson queria agradar, porque já andava com a Dayenne, Silmara estava desconfiada e morava praqueles lados. Ela comentou com André, que falou pro Tim.
Durante dois anos, eles se viam às quintas-feiras, folga de André e noite mais tranquila para os pizza-boys, porque não havia promoção nas pizzarias. Aí Dayenne cismou de aparecer, quando engravidou, e sentou na mesa do botequim. Obrigou Wendson a acabar com Silmara, que resolveu dar o troco, iniciando um romance com Maicon Wagnertyson. Ele, que sempre tinha sido um cara quieto, boa gente, se apaixonou pela Silmara, que engravidou de gêmeos. Àquela altura, o medo era que Dona Marta, tão tranqüila, também decidisse se engraçar para algum dos pizza-boys, e aparecesse de barriga. Avó de quatro menininhas feiosas e magricelas, Dona Marta preferia distância de encrenca, diferente das que deram o golpe do bucho cheio até puxarem os maridos para fora do grupo.
- Foi melhor assim, ninguém conseguia falar direito o nome daqueles moleques – consolava Agenor – Ainda ficou o Tatiano, de nome esquisito.
Por fim restaram apenas Agenor, Dionelton, Tatiano, Luciano, Tim Maia e Carlão. Seu Lucrécio se aposentou, dona Marta sentia falta da companhia feminina e deixou o grupo, a distribuidora de jornais onde Paulinho trabalhava faliu, André mudou-se para o interior de São Paulo, Juninho prometeu à mãe que ia largar a moto, depois de um acidente em que arrebentou o joelho, e arrumou emprego no Centro. “Como você sabe que é cobrança?”, insistia Luciano.
- Ou vem em envelope com carimbo atrás, do escritório de um advogado fajuto, ou é um envelope igual a esses aerogramas, sabe? O envelope é no mesmo papel que a carta, vem impresso e fechadinho, tem que rasgar pelo lado. Eu virei arremessador de carta de cobrança, contas, alguns pacotes, só isso. Não dá pra deixar listinha nem envelope pedindo caixinha de Natal – explicou Agenor.
Tim Maia era o mais indignado com o declínio das caixinhas. Na décima cerveja, socou a mesinha que o boteco insistia em instalar na calçada, sem dar a menor importância à proximidade com o Batalhão da PM ou com o Palácio da Cidade. “Por causa de vocês, eu agora só ganho panetone e vinho no Natal”.
- Como assim, por causa da gente?
- O que sucedia antes – Tim Maia adorava empregar verbos que ninguém mais usava – era que vocês vinham com as listinhas e eu passava pras madames e pros doutores. As madames sempre foram ruins de jogo, mas os doutores assinavam a lista, deixavam um qualquer no envelopinho e, com vergonha, davam uma cerveja ou até falavam: “e a tua caixinha, Timmaia, não vai rolar, não?”. Eu bancava o humilde, “que isso, doutor, to aqui o tempo todo, não sou disso, não”, e eles abriam a carteira, davam 30, 40 paus. No fim de dezembro, eu sempre faturava uns bons 300 contos. Agora? Porra nenhuma de grana, só panetone e vinho seco vagabundo, mas metido a chique. Malandro, eu DETESTO, tenho ojeriza por panetone, uma merda de pão seco cheio de frutinha dentro. E inventaram agora um tal de chocotone, de pão seco com chocolatinho, um troço que só viado ou filha da puta que tem mãe na zona é que aprecia.
Tatiano e Luciano também viam minguar as contribuições nas caixinhas – concretas, encapadas com papel de presente – que ficavam sobre os balcões das padarias. “Esse povo é muito miserável. Ninguém deixa um troquinho lá. Antes, eu bem que fazia um envelopinho e deixava na portaria, com os melhores votos de seu amigo, o padeiro. Na cara de pau, fazia mesmo. Mas aí o seu Vasco descobriu, me deu um esporro daqueles, ameaçou me demitir. Acabou minha festinha”, lembrou Tatiano.
- Ninguém mais assina jornal. Nem revista. Nem porra nenhuma. Ninguém lê nada em papel. E sabem por quê? Por causa da porra do computador. Vocês sabiam que os jornais também mostram as notícias no computador, né? Aí, perdem leitores e ganham sei lá o quê. Foi por isso que fechou a distribuidora do Paulinho. E vai fechar mais coisa, eu já ouvi dizer que agora que não precisa mais ser jornalista com diploma de faculdade pra trabalhar em jornal, eles vão ter que aprender a distribuir e a ir pra gráfica também – comentou Carlão.
Dionelton se indignou.
- Porra, Carlão, mas tu acredita em cada besteira, cumpadre. Como é que vão botar aqueles garotinhos mauriçolas do asfalto pra fazer trabalho pesado de gráfico, ir pra distribuição? A gente levanta na hora em que eles estão saindo de festa, ô. babaca! Me admira tu, um cara todo metido a descolado, ser tão ignorante assim.
Em parte, Carlão tinha razão, observou Agenor. O computador também acabara com os cartões de Natal. Todo mundo manda um tal de cartão virtual agora.
- O papel ta se acabando. Igual fotografia, ninguém tem mais no papel, só nas telas dos computadores. Ficou uma coisa muito esquisita. Minha filha não vê algum de foto, só se tiver foto no celular, no computador. Agora, pra vocês pensarem um pouco, o que era uma coisa da imaginação, a caixinha, que não existia de verdade, assim, pra apalpar, se acabou. Mas as fotos, que a gente pegava, segurava na mão, também se acabaram.
- Agenor, eu não sei se tu virou filósofo ou se tá de porre mesmo - disse Dioneilton.
- Tá é velho. E de porre - opinou Carlão.
- Tudo o que vai volta, meu irmão, tudo o que vai volta...
Os amigos estranharam, parecia que Agenor não estava falando com eles. Dioneilton quis saber o que iria e voltaria. Agenor, olhava em direção da bandeira do Fluminense, na parede do bar.
- Ta, vou explicar. Cês lembram do apagão? Naquela noite, não tinha televisão, não rolou computador, não tinha porra nenhuma que precisava de eletricidade ligado. Isso foi só um recado da natureza, um aviso de que as coisas não são pra ficar desse jeito, não. Que neguinho pode usar computador, sim, mas não é pra tudo, não. Porque falta luz. Vai faltar muita luz. E aí, todos vão voltar a escrever carta, a mandar cartas de amor, bilhetes rompendo com a namorada, essas coisas. Participação de nascimento de filho, convite pra festa. Tudo em papel novamente. Porque papel amassa, molha, apaga, mas a gente pega com a mão, grava no olho, na cabeça. E aí, a gente vai ter emprego sempre, vamos fazer greve pedindo aumento antes do Natal, vai ter caixinha de Natal, tudo de novo. Espera só mais uns dois apagãos, porque vai rolar mais apagão nesse verão que tá entrando. Tá, esse Natal tá uma merda, pobrinho, um miserê. Mas espera pra ver o próximo.
- Então, paga a saideira por conta do próximo Natal, Agenor!
- Pago porra nenhuma, tô mais duro que pau de tarado! Com mulher e filha, tô pra lá de fodido, tive que comprar roupa pra festa de Natal, de colégio, de reveillon. Tu ainda teve uma caixinha aí dos assinantes. Paga tu, Dioneílton.
- No próximo Natal, Agenor, no próximo Natal.
27.12.09
1.11.07
29.5.07
Na rua
Nos filmes sempre tem uma caixa, o homem - nunca é mulher, sempre é homem - esvazia uma montanha de gavetas e bota tudo no caixote de papelão. Na vida real, depois do choro no banheiro e dos olhares compungidos, não há gavetas a esvaziar, o que se deixa no escritório é o que nunca deveria ter saído de lá ou o que jamais poderia ter entrado. Fotos de filhos, plantinhas, coisa mais menininha, mulherzinha, quis trabalhar, agora agüenta.
Você é feia, linda, jovem, mal humorada, repeliu o chefe, não foi alvo de cantata alguma, envelheceu, casou, ficou solteira, teve filho, descasou, organizava as festas de aniversário da repartição, enviuvou, sustenta família, mas nunca será chefe de família a ponto de comover o patrão e ser poupada no corte. Nunca passou por isso antes? Já houve uma primeira vez, então, engole em seco, a sensação é a mesma em todas elas.
O vazio, o desconforto, o temor, a perda da identidade, toda aquela enxurrada de terminologia que encerra apenas a frustração por não conseguir permanecer em segurança. Sua culpa é seguir o mundo, fingir que trabalha por ideal, que escolheu sua profissão, escolheu sua independência. Veste a couraça, sobe no salto alto e segura o tranco da pancada no peito ao ouvir "vamos ter que dispensar você".
O que seria empilhado na caixa de papelão do filme americano vai caber na sacola plástica de uma boa loja de griffe que a colega que manteve o emprego arranjou. Ao menos não é sacola de supermercado. Na rua ninguém identificará o desespero, a desesperança, a nova queda.
Publicado no www.anjosdeprata.com.br
Você é feia, linda, jovem, mal humorada, repeliu o chefe, não foi alvo de cantata alguma, envelheceu, casou, ficou solteira, teve filho, descasou, organizava as festas de aniversário da repartição, enviuvou, sustenta família, mas nunca será chefe de família a ponto de comover o patrão e ser poupada no corte. Nunca passou por isso antes? Já houve uma primeira vez, então, engole em seco, a sensação é a mesma em todas elas.
O vazio, o desconforto, o temor, a perda da identidade, toda aquela enxurrada de terminologia que encerra apenas a frustração por não conseguir permanecer em segurança. Sua culpa é seguir o mundo, fingir que trabalha por ideal, que escolheu sua profissão, escolheu sua independência. Veste a couraça, sobe no salto alto e segura o tranco da pancada no peito ao ouvir "vamos ter que dispensar você".
O que seria empilhado na caixa de papelão do filme americano vai caber na sacola plástica de uma boa loja de griffe que a colega que manteve o emprego arranjou. Ao menos não é sacola de supermercado. Na rua ninguém identificará o desespero, a desesperança, a nova queda.
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