
Segurar a porta no meio do terreno não fazia o menor sentido pra mim, mas como o Alexandre sempre gostou de planejamentos detalhados que a gente não compreendia muito bem, enfim, aparentemente que algo solene dependia daquela porta solta na paisagem, como um quadro de Magritte. Então, ele se postou dentro daquela floresta esquisita de árvores ressequidas, na verdade um bosque, porque tinha sido tudo plantado num descampado que fora, originalmente, um pasto de um sítio vendido em loteamento. Ficou segurando a porta e o que nós chamávamos de portal, mas que o Alexandre explicou ser o alizar e a aduela da porta. A estrutura parecia que ia despencar a qualquer momento, mas o Alexandre conseguiu firmar tudo, abrindo a porta e segurando a maçaneta, como se estivesse recebendo uma visita.
Na verdade, ele estava era escorando o portal, o pórtico, o alizar, seja lá o nome que tivesse, com o ombro, posando pra sair no filme. Dava para ver que era pesado, mas eu não ia deixar o Joel ajudar, porque, convenhamos, um menino de 12 anos não ia correr o risco de se machucar naquela madeira toda, de entrar farpa na mão da criança, de acontecer um acidente, pegar tétano, principalmente naquela lonjura para onde o Alexandre inventara de levar a maldita porta com o alizar/aduela/pórtico/portal.
A única pessoa entusiasmada com a cena era a Luciana, que pensava ainda que a casa seria dela, porque o Alexandre estava apaixonado por ela e queria se esconder naquele fim de mundo com a baranguinha. Luciana se oferecia para ajudar a segurar a porta, para tirar fotos, para mexer com a câmera de vídeo. E eu lá, otária, doida para cair fora, imaginando quando na vida voltaria a encontrar um banheiro decente, porque fazer xixi no mato nem pensar, já me aconteceu uma vez só, mas eu estava nos Andes, de madrugada e não tinha jeito, ia acabar me molhando toda. Agora ali, perto de Mauá, dava pra agüentar um tanto e procurar um hotelzinho pra ir ao banheiro, claro.
Só quando chegamos lá é que atinei por que Luciana se enfiara no passeio da família. A verdade? Eu só fui para não pegar mal. Não gosto de mato, não gosto de frio, nem gostava mais do Alexandre. O Joel, tadinho, gostava muito. Gostava, do verbo não gosta mais tanto assim, não, que meu filho não é besta, aprendeu como dói o desprezo, mesmo de um picareta igual ao pai dele. Então, acabei enfrentando estrada com o Alexandre dirigindo, agüentando a alegria forçada da Luciana que concordava com todas as observações do Alexandre, se oferecia para dirigir e entoava canções idiotas com Joel. Se eu falasse alguma coisa, ela demonstrava uma aprovação exuberante, soltando um risinho nervoso. Eu já devia ter desconfiado que alguma coisa havia entre aqueles dois. As gargalhadas cúmplices, os comentários sobre gente do escritório, a desculpa esfarrapada de que ela queria aproveitar a carona para comprar cachecol baratíssimo em Penedo...
Como eu não teria muita paciência para aturar sozinha o Alexandre, nem reclamei quando ele me perguntou o que eu achava da companhia da Luciana. Mal a conhecia, tinha visto a moça uma vez, na praia, admitido que o corpo era bonito, o rosto bem sem gracinha.
- Daqui a um ano, esta porta se abrirá para uma sala toda em madeira, com sofás e poltronas aveludadas, quentinha, igual a um chalezinho europeu – bradou Alexandre para a câmera que Luciana empunhava – Aqui será o quarto do Joel, aqui, o quarto principal, aqui, o quarto de hóspedes, a dispensa, a cozinha – ia Alexandre enumerando, enquanto passava pelo terreno. A porta, àquela altura, já tombara no solo.
Então, Alexandre desceu o barranco do terreno, Luciana atrás, gravando e rindo, dando gritinhos. Entrei no carro e procurei as chaves. Queria ligar o carro para acender um cigarro, mas a chave estava com Alexandre. No banco de trás, vi uma pasta colorida, dessas de guardar trabalhos escolares. Me estiquei e abri, sem saber por que Joel trouxera aquilo. Não era de Joel. Tinha a escritura de um terreno vizinho ao nosso. O comprador do terreno era Luciana. Chamei Joel.
- Vamos adiantar e amarrar a porta no teto do carro, que eu quero ir de uma vez.
- Ah, mãe, olha o peso.
- Deixa de ser frouxo, garoto, vamos lá!
Amarrada a porta no carro, precisava da chave.
- Pede a chave do carro pro seu pai.
- Pra quê?
- Quero ligar o ar, ora. E diz pra mandar os documentos, que daqui a pouco ele cai no rio e molha tudo. Estão no bolso dele.
Alexandre mandou documentos, casaco, tudo. Liguei o carro, mas antes rasguei a escritura do terreno da Luciana.
- Vambora, Joel.
- E eles, mãe?
- Entra no carro, filho. Depois, eles se viram.
- O que está acontecendo, mãe?
Arranquei os documentos do carro do bolso do casaco. Joguei o casaco pela janela e só reencontrei Alexandre na audiência de conciliação, oito meses depois. Alexandre e Luciana construíram um chalé descomunal no centro dos dois terrenos. Nosso terreno ficou no nome de Joel, em usofruto do pai. A burra da Luciana não sabia que a construção era do Joel também e que ela, um dia, terá que vender tudo e ficar apenas com a metade que lhe cabe, porque o Joel não vai ser besta e deixar essa história barata. Nem aquela porta maldita eles puderam usar no chalé, o que obrigou Alexandre a refazer todo o planejamento dele, que, segundo contou ao Joel, não incluía ir morar no apartamento da Luciana, na Tijuca, pois ele disse que o casamento deveria ser mantido pelo bem do Joel, que necessita muito da figura paterna. Mas o Joel é guerreiro e um menino muito generoso. Foi dele a idéia de deixarmos a porta perto de uma favelinha, na descida da serra.
Na verdade, ele estava era escorando o portal, o pórtico, o alizar, seja lá o nome que tivesse, com o ombro, posando pra sair no filme. Dava para ver que era pesado, mas eu não ia deixar o Joel ajudar, porque, convenhamos, um menino de 12 anos não ia correr o risco de se machucar naquela madeira toda, de entrar farpa na mão da criança, de acontecer um acidente, pegar tétano, principalmente naquela lonjura para onde o Alexandre inventara de levar a maldita porta com o alizar/aduela/pórtico/portal.
A única pessoa entusiasmada com a cena era a Luciana, que pensava ainda que a casa seria dela, porque o Alexandre estava apaixonado por ela e queria se esconder naquele fim de mundo com a baranguinha. Luciana se oferecia para ajudar a segurar a porta, para tirar fotos, para mexer com a câmera de vídeo. E eu lá, otária, doida para cair fora, imaginando quando na vida voltaria a encontrar um banheiro decente, porque fazer xixi no mato nem pensar, já me aconteceu uma vez só, mas eu estava nos Andes, de madrugada e não tinha jeito, ia acabar me molhando toda. Agora ali, perto de Mauá, dava pra agüentar um tanto e procurar um hotelzinho pra ir ao banheiro, claro.
Só quando chegamos lá é que atinei por que Luciana se enfiara no passeio da família. A verdade? Eu só fui para não pegar mal. Não gosto de mato, não gosto de frio, nem gostava mais do Alexandre. O Joel, tadinho, gostava muito. Gostava, do verbo não gosta mais tanto assim, não, que meu filho não é besta, aprendeu como dói o desprezo, mesmo de um picareta igual ao pai dele. Então, acabei enfrentando estrada com o Alexandre dirigindo, agüentando a alegria forçada da Luciana que concordava com todas as observações do Alexandre, se oferecia para dirigir e entoava canções idiotas com Joel. Se eu falasse alguma coisa, ela demonstrava uma aprovação exuberante, soltando um risinho nervoso. Eu já devia ter desconfiado que alguma coisa havia entre aqueles dois. As gargalhadas cúmplices, os comentários sobre gente do escritório, a desculpa esfarrapada de que ela queria aproveitar a carona para comprar cachecol baratíssimo em Penedo...
Como eu não teria muita paciência para aturar sozinha o Alexandre, nem reclamei quando ele me perguntou o que eu achava da companhia da Luciana. Mal a conhecia, tinha visto a moça uma vez, na praia, admitido que o corpo era bonito, o rosto bem sem gracinha.
- Daqui a um ano, esta porta se abrirá para uma sala toda em madeira, com sofás e poltronas aveludadas, quentinha, igual a um chalezinho europeu – bradou Alexandre para a câmera que Luciana empunhava – Aqui será o quarto do Joel, aqui, o quarto principal, aqui, o quarto de hóspedes, a dispensa, a cozinha – ia Alexandre enumerando, enquanto passava pelo terreno. A porta, àquela altura, já tombara no solo.
Então, Alexandre desceu o barranco do terreno, Luciana atrás, gravando e rindo, dando gritinhos. Entrei no carro e procurei as chaves. Queria ligar o carro para acender um cigarro, mas a chave estava com Alexandre. No banco de trás, vi uma pasta colorida, dessas de guardar trabalhos escolares. Me estiquei e abri, sem saber por que Joel trouxera aquilo. Não era de Joel. Tinha a escritura de um terreno vizinho ao nosso. O comprador do terreno era Luciana. Chamei Joel.
- Vamos adiantar e amarrar a porta no teto do carro, que eu quero ir de uma vez.
- Ah, mãe, olha o peso.
- Deixa de ser frouxo, garoto, vamos lá!
Amarrada a porta no carro, precisava da chave.
- Pede a chave do carro pro seu pai.
- Pra quê?
- Quero ligar o ar, ora. E diz pra mandar os documentos, que daqui a pouco ele cai no rio e molha tudo. Estão no bolso dele.
Alexandre mandou documentos, casaco, tudo. Liguei o carro, mas antes rasguei a escritura do terreno da Luciana.
- Vambora, Joel.
- E eles, mãe?
- Entra no carro, filho. Depois, eles se viram.
- O que está acontecendo, mãe?
Arranquei os documentos do carro do bolso do casaco. Joguei o casaco pela janela e só reencontrei Alexandre na audiência de conciliação, oito meses depois. Alexandre e Luciana construíram um chalé descomunal no centro dos dois terrenos. Nosso terreno ficou no nome de Joel, em usofruto do pai. A burra da Luciana não sabia que a construção era do Joel também e que ela, um dia, terá que vender tudo e ficar apenas com a metade que lhe cabe, porque o Joel não vai ser besta e deixar essa história barata. Nem aquela porta maldita eles puderam usar no chalé, o que obrigou Alexandre a refazer todo o planejamento dele, que, segundo contou ao Joel, não incluía ir morar no apartamento da Luciana, na Tijuca, pois ele disse que o casamento deveria ser mantido pelo bem do Joel, que necessita muito da figura paterna. Mas o Joel é guerreiro e um menino muito generoso. Foi dele a idéia de deixarmos a porta perto de uma favelinha, na descida da serra.

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