<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481</id><updated>2012-02-16T08:49:11.520-02:00</updated><title type='text'>Webliterata</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>28</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-9117433229685777960</id><published>2009-12-27T13:49:00.005-02:00</published><updated>2009-12-27T16:45:54.093-02:00</updated><title type='text'>O próximo Natal, em Botafogo</title><content type='html'>Sem greve, sem caixinha de Natal, um fim de ano tão sem graça, cada vez mais sem graça, pensava Agenor. Mais de vinte anos correndo ruas na mesma região, conhecendo os moradores pelo nome, poucos pela cara, para quê? Ninguém manda mais cartão de Natal, nem cartas. Como é que se deixa o envelopinho com os cumprimentos de “seu amigo, o carteiro” se ninguém mais escreve carta? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu me limito a entregar contas. E muita correspondência de cobrança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que vc sabe se é cobrança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vizinho, Dionelton, entregava jornais na mesma área. Tivera a idéia de reunir os Arremessadores, como se intitulavam todos os que entregavam correspondência nas ruas próximas à São Clemente, em Botafogo. Anos antes, o grupo reunia quase quinze pessoas. Já haviam sido três entregadores de jornal. Além do Dionelton, tinha Carlão e Paulinho. Também faziam parte da corja o seu Lucrécio da farmácia, que tirava a pressão das velhinhas do 233 a domicílio, os três entregadores de pizza, Juninho, Wendson e Maicon Wagnertyson,  Dona Marta, que distribuía  quentinhas aos porteiros, dois meninos que trabalhavam em duas padarias concorrentes, Luciano e Tatiano, e ainda iam a Silmara, que era babá no 233 e namorava o Wendson antes que ele se casasse com outra namorada, a Dayenne, a própria Dayenne, o André, porteiro do 233, e o Tim Maia, dublê de segurança e porteiro da vila. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início, os chopes só deveriam incluir os Arremessadores, ou seja, quem jogava a correspondência na caixa do correio ou no colo dos porteiros,porém Tim Maia soube do encontro e apareceu, de surpresa. Quem dera com a língua nos dentes fora a Silmara. Bem que haviam combinado de não chamar mulher, mas Wendson queria agradar, porque já andava com a Dayenne, Silmara estava desconfiada e morava praqueles lados. Ela comentou com André, que falou pro Tim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante dois anos, eles se viam às quintas-feiras, folga de André e noite mais tranquila para os pizza-boys, porque não havia promoção nas pizzarias. Aí  Dayenne cismou de aparecer, quando engravidou, e sentou na mesa do botequim. Obrigou Wendson a acabar com Silmara, que resolveu dar o troco, iniciando um romance com Maicon Wagnertyson. Ele, que sempre tinha sido um cara quieto, boa gente, se apaixonou pela Silmara, que engravidou de gêmeos. Àquela altura, o medo era que Dona Marta, tão tranqüila, também decidisse se engraçar para algum dos pizza-boys, e aparecesse de barriga. Avó de quatro menininhas feiosas e magricelas, Dona Marta preferia distância de encrenca, diferente das que deram o golpe do bucho cheio até puxarem  os maridos para fora do grupo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi melhor assim, ninguém conseguia falar direito o nome daqueles moleques – consolava Agenor – Ainda ficou o Tatiano, de nome esquisito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim restaram apenas Agenor, Dionelton, Tatiano, Luciano, Tim Maia e Carlão. Seu Lucrécio se aposentou, dona Marta sentia falta da companhia feminina e deixou o grupo, a distribuidora de jornais onde Paulinho trabalhava faliu, André mudou-se para o interior de São Paulo, Juninho prometeu à mãe que ia largar a moto, depois de um acidente em que arrebentou o joelho, e arrumou emprego no Centro.  “Como você sabe que é cobrança?”, insistia Luciano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ou vem em envelope com carimbo atrás, do escritório de um advogado fajuto, ou é um envelope igual a esses aerogramas, sabe? O envelope é no mesmo papel que a carta, vem impresso e fechadinho, tem que rasgar pelo lado. Eu virei arremessador de carta de cobrança, contas, alguns pacotes, só isso. Não dá pra deixar listinha nem envelope pedindo caixinha de Natal – explicou Agenor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tim Maia era o mais indignado com o declínio das caixinhas. Na décima cerveja, socou a mesinha que o boteco insistia em instalar na calçada, sem dar a menor importância à proximidade com o Batalhão da PM ou com o Palácio da Cidade. “Por causa de vocês, eu agora só ganho panetone e vinho no Natal”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como assim, por causa da gente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que sucedia antes – Tim Maia adorava empregar verbos que ninguém mais usava – era que vocês vinham com as listinhas e eu passava pras madames e pros doutores. As madames sempre foram ruins de jogo, mas os doutores assinavam a lista, deixavam um qualquer no envelopinho e, com vergonha, davam uma cerveja ou até falavam: “e a tua caixinha, Timmaia, não vai rolar, não?”. Eu bancava o humilde, “que isso, doutor, to aqui o tempo todo, não sou disso, não”, e eles abriam a carteira, davam 30, 40 paus. No fim de dezembro, eu sempre faturava uns bons 300 contos. Agora? Porra nenhuma de grana, só panetone e vinho seco vagabundo, mas metido a chique. Malandro, eu DETESTO, tenho ojeriza por panetone, uma merda de pão seco cheio de frutinha dentro. E inventaram agora um tal de chocotone, de pão seco com chocolatinho, um troço que só viado ou filha da puta que tem mãe na zona é que aprecia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatiano e Luciano também viam minguar as contribuições nas caixinhas – concretas, encapadas com papel de presente – que ficavam sobre os balcões das padarias. “Esse povo é muito miserável. Ninguém deixa um troquinho lá. Antes, eu bem que fazia um envelopinho e deixava na portaria, com os melhores votos de seu amigo, o padeiro. Na cara de pau, fazia mesmo. Mas aí o seu Vasco descobriu, me deu um esporro daqueles, ameaçou me demitir. Acabou minha festinha”, lembrou Tatiano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém mais assina jornal. Nem revista. Nem porra nenhuma. Ninguém lê nada em papel. E sabem por quê? Por causa da porra do computador. Vocês sabiam que os jornais também mostram as notícias no computador, né? Aí, perdem leitores e ganham sei lá o quê. Foi por isso que fechou a distribuidora do Paulinho. E vai fechar mais coisa, eu já ouvi dizer que agora que não precisa mais ser jornalista com diploma de faculdade pra trabalhar em jornal, eles vão ter que aprender a distribuir e a ir pra gráfica também – comentou Carlão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dionelton se indignou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, Carlão, mas tu acredita em cada besteira, cumpadre. Como é que vão botar aqueles garotinhos mauriçolas do asfalto pra fazer trabalho pesado de gráfico, ir pra distribuição? A gente levanta na hora em que eles estão saindo de festa, ô. babaca! Me admira tu, um cara todo metido a descolado, ser tão ignorante assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em parte, Carlão tinha razão, observou Agenor. O computador também acabara com os cartões de Natal. Todo mundo manda um tal de cartão virtual agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O papel ta se acabando. Igual fotografia, ninguém tem mais no papel, só nas telas dos computadores. Ficou uma coisa muito esquisita. Minha filha não vê algum de foto, só se tiver foto no celular, no computador. Agora, pra vocês pensarem um pouco, o que era uma coisa da imaginação, a caixinha, que não existia de verdade, assim, pra apalpar, se acabou. Mas as fotos, que a gente pegava, segurava na mão, também se acabaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agenor, eu não sei se tu virou filósofo ou se tá de porre mesmo - disse Dioneilton. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá é velho.  E de porre - opinou Carlão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo o que vai volta, meu irmão, tudo o que vai volta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amigos estranharam, parecia que Agenor não estava falando com eles. Dioneilton quis saber o que iria e voltaria.  Agenor, olhava em direção da bandeira do Fluminense, na parede do bar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ta, vou explicar. Cês lembram do apagão? Naquela noite, não tinha televisão, não rolou computador, não tinha porra nenhuma que precisava de eletricidade ligado. Isso foi só um recado da natureza, um aviso de que as coisas não são pra ficar desse jeito, não. Que neguinho pode usar computador, sim, mas não é pra tudo, não. Porque falta luz. Vai faltar muita luz. E aí, todos vão voltar a escrever carta, a mandar cartas de amor, bilhetes rompendo com a namorada, essas coisas. Participação de nascimento de filho, convite pra festa. Tudo em papel novamente.  Porque papel amassa, molha, apaga, mas a gente pega com a mão, grava no olho, na cabeça. E aí, a gente vai ter emprego sempre, vamos fazer greve pedindo aumento antes do Natal, vai ter caixinha de Natal, tudo de novo. Espera só mais uns dois apagãos, porque vai rolar mais apagão nesse verão que tá entrando. Tá, esse Natal tá uma merda, pobrinho, um miserê. Mas espera pra ver o próximo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, paga a saideira por conta do próximo Natal, Agenor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pago porra nenhuma, tô mais duro que pau de tarado! Com mulher e filha, tô pra lá de fodido, tive que comprar roupa pra festa de Natal, de colégio, de reveillon. Tu ainda teve uma caixinha aí dos assinantes. Paga tu, Dioneílton.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No próximo Natal, Agenor, no próximo Natal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-9117433229685777960?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/9117433229685777960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=9117433229685777960' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/9117433229685777960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/9117433229685777960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2009/12/sem-greve-sem-caixinha-de-natal.html' title='O próximo Natal, em Botafogo'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-6941304490266871242</id><published>2007-11-01T09:33:00.000-02:00</published><updated>2007-11-01T09:34:26.567-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s1600-h/Reggae_Breeze.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5127833858138027602" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-6941304490266871242?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/6941304490266871242/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=6941304490266871242' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/6941304490266871242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/6941304490266871242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2007/11/blog-post.html' title=''/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s72-c/Reggae_Breeze.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-6066369624937392250</id><published>2007-05-29T11:12:00.001-03:00</published><updated>2007-05-29T11:13:41.967-03:00</updated><title type='text'>Na rua</title><content type='html'>Nos filmes sempre tem uma caixa, o homem - nunca é mulher, sempre é homem - esvazia uma montanha de gavetas e bota tudo no caixote de papelão. Na vida real, depois do choro no banheiro e dos olhares compungidos, não há gavetas a esvaziar, o que se deixa no escritório é o que nunca deveria ter saído de lá ou o que jamais poderia ter entrado. Fotos de filhos, plantinhas, coisa mais menininha, mulherzinha, quis trabalhar, agora agüenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é feia, linda, jovem, mal humorada, repeliu o chefe, não foi alvo de cantata alguma, envelheceu, casou, ficou solteira, teve filho, descasou, organizava as festas de aniversário da repartição, enviuvou, sustenta família, mas nunca será chefe de família a ponto de comover o patrão e ser poupada no corte. Nunca passou por isso antes? Já houve uma primeira vez, então, engole em seco, a sensação é a mesma em todas elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vazio, o desconforto, o temor, a perda da identidade, toda aquela enxurrada de terminologia que encerra apenas a frustração por não conseguir permanecer em segurança. Sua culpa é seguir o mundo, fingir que trabalha por ideal, que escolheu sua profissão, escolheu sua independência. Veste a couraça, sobe no salto alto e segura o tranco da pancada no peito ao ouvir "vamos ter que dispensar você". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que seria empilhado na caixa de papelão do filme americano vai caber na sacola plástica de uma boa loja de griffe que a colega que manteve o emprego arranjou. Ao menos não é sacola de supermercado. Na rua ninguém identificará o desespero, a desesperança, a nova queda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicado no www.anjosdeprata.com.br&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-6066369624937392250?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/6066369624937392250/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=6066369624937392250' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/6066369624937392250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/6066369624937392250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2007/05/na-rua.html' title='Na rua'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-114409468397331218</id><published>2006-04-03T17:02:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:47.191-03:00</updated><title type='text'>Canção da Mulher com TPM</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Vivo sem consolo.&lt;br /&gt;Entenda: eu preciso chorar, não se apavore.&lt;br /&gt;Vêm a fome, a dor, o desespero.&lt;br /&gt;Mas não dá pra morrer hoje, tenho tanto a ler, ainda não fui à Europa&lt;br /&gt;Tomara, tomara mesmo que não dê praia amanhã, eu não quero ir, seria tão bom dar uma caminhada na Cláudio Coutinho, a televisão é uma merda no fim de semana, esse livro é um porre e não tem nada que preste no cinema.&lt;br /&gt;Nem dá pra sair direito, o elevador quebrou, descer é fácil, mas eu vou querer fazer supermercado na volta, eu sempre faço supermercado se saio e aí vai ser fogo subir, porque o porteiro, nessas horas, SOME.&lt;br /&gt;O problema é que nessa casa tem um bando de vândalos esfaimados que saqueiam a geladeira, dá vontade de só ter água, não agüento, não agüento mais mesmo, estou farta de carregar o mundo nas costas.&lt;br /&gt;Um dia, sei, vou estourar, todo mundo acaba pifando, coração não segura por tanto tempo, não. Estou na faixa crítica, nessa idade, enfarte é fulminante, sim. Detesto quem fala infarto, o alface, o brócoli, sabe? O Broccoli era o produtor dos filmes do James Bond, morreu, o único James Bond que desejei foi o Pierce Brosnan, que envelheceu e fez um filme daqueles pra mostrar que não tem o menor glamour, em que ator leva a câmera bem pra perto dos olhos pra aparecerem todos os vincos, as ruguinhas, como se dali saísse uma interpretação decente. O que ele tinha de melhor era a beleza mesmo, ora essa. Qual é o problema desses artistas que se firmam pela beleza e depois engordam duas toneladas pra ganhar Oscar? Os caras não conseguem ser bonitos e competentes? Aí, na hora de arrumar emprego, a gente tem que parecer bonita e bem disposta. Além de branca, claro, porque vai dizer que o Brasil não é racista, não.&lt;br /&gt;Ai, viajei, viajei, muito mesmo. Nem me lembro por que veio essa história de James Bond na cabeça. Ultimamente, sofro uns brancos na memória. Particularmente, acredito que seja pré-Alzeihmer, porque eu não vou ter um fim tranqüilo, não. Ninguém tem. Descobri que sou muito negativa quando escrevo e cansei disso. Agora, serei pra cima, engraçada, motivadora, porque este foi o papel que a vida me reservou. Nas festas, sempre sou engraçada, animada, boba da corte, porque assim eu sobrevivo melhor.&lt;br /&gt;Ah, era só o que faltava, está chovendo e agora não dá mais pra fazer nada. Vou ficar confinada nessa casa mesmo! Haja paciência, você vai acordar e começar a inventar de sair, de ir visitar sua mãe. Quem foi que criou a lei de que aos domingos se visita a mãe. Será que a gente não pode passar um só domingo quieto, dormindo, morgando, hibernando? Ler jornal na cama, café morno, sem tirar pijama. É bom, faz bem à saúde. Pra que essa obrigação de se movimentar o tempo todo?&lt;br /&gt;Se você vier me perguntar se eu estou na TPM novamente, o que acha que eu vou dizer? Tudo pra vocês é TPM. Homem pode dar porrada, gritar, ser estúpido, que é masculino. Se eu faço o mesmo, estou na TPM. Até estou, mas deixa meus hormônios em paz que eu não quero nem saber que dia é hoje. TPM pra mulher é igual a cio de gata. Tudo escandalosa, mas no fim o que a gente quer é preparar o terreno pra se acalmar e abrigar mais gente dentro da gente.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-114409468397331218?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/114409468397331218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=114409468397331218' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/114409468397331218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/114409468397331218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2006/04/cano-da-mulher-com-tpm.html' title='Canção da Mulher com TPM'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-114297219802388050</id><published>2006-03-21T17:06:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:47.129-03:00</updated><title type='text'>Fascinação</title><content type='html'>A melodia grudou na cabeça feito chiclete em sapato. Ainda bem que era bonita, embora odiasse o jeito como Elis começava aqueles "os sonhos mais liiiiiinduuuuuxxxx". Que ninguém a ouvisse, principalmente os amigos que cultuavam a cantora, cujo nome lhes provocava imediatamente reações em seqüência: primeiro, o suspiro, segundo, o sorriso, terceiro o menear da cabeça, quarto, o olhar profundo. Às vezes, alguns espalmavam a mão ao peito também. O êxtase alcançavam quando ouviam discos velhos, remasterizados em CDs.&lt;br /&gt;Tá, tá, a música é boa, Elis também, mas ambas pertencem ao passado e lá deveriam ficar. Preferia cantada pelo Nat King Cole. Era o nome do filme que não lhe vinha à memória, mas estava passando na TV, só que adormeceu no meio da cena em que Gerard Phillippe dançava com a ... ai, era Jeanne Moureau, não? E tocava "Fascination", com orquestra apenas. Os dois dançando, uma roupa linda a da mulher, ele todo bonito de uniforme militar. O diabo é que a música passsou a persegui-la dia e noite, desde aquela madrugada que tentara romper olhando qualquer porcaria na televisão. O filme era bom, mas cochilou bem no meio, não sabia o fim, se o cara ia pra guerra, se era um vigarista, aquelas coisas de filme francês da década de 50. As Grandes Manobras, era esse o nome! Televisão dá um sono terrível, sempre dormia no mesmo trecho de "O Espião que saiu do frio". Nunca gostara de filme de espionagem, mas Agripino adorava, então tentou ver o filme. Três vezes. Acordava na cena final, Richard Burton era fuzilado tentando atravessar o Muro de Berlim. Ai, que coisa mais datada, o Muro caiu, o queixo de todo mundo caiu junto, acabou o comunismo soviético, Guerra Fria, agora a briga é com gente esquisita que se mata em nome de Deus.&lt;br /&gt;A musiquinha martelava sua cabeça no banho, no café-da-manhã, na feira, na praia, na rua. Pegava-se cantarolando, e, quando reconhecia, arfava: "Ai, que eu não me livro dessa música maldita". Era só se distrair que vinham os primeiros compassos. Mas ninguém ouvia, só ela, que tinha de manter tudo em segredo, em silêncio, ou iam pensar que estava maluca mesmo.&lt;br /&gt;Botou a chave na porta e sabia que a música iria começar imediatamente, porque ela chegava quando estava sozinha e as tardes de sábado eram muito tranqüilas, sem crianças, sem visitas. O som, desta vez, veio alto. Era Elis: "Os sonhos mais liiiiiinduuuuxxx....". Estacou, sem compreender. Alucinação? Apoiou-se na porta, agarrando a maçaneta e foi cercada por muito barulho. Um alarido encobriu a música, gritos de "Surpresa!", "Parabéns, Vovó". Sentiu que ia cair, mas o filho a abraçava. Sentiu que ia estragar a alegria de muita gente, esboçou um sorriso quando alguém disse "Vovó adora essa música, vive cantando".Torceu para que ninguém pensasse em associá-la àquela música infeliz.&lt;br /&gt;Não adiantou. No fim da missa de sétimo dia, Frei Henrique conclamou os presentes a se juntarem numa última homenagem à Dona Joana Brígida. "A letra está no santinho que os filhos, sabendo do apreço da mãe por esta bela canção, mandaram imprimir. Vamos cantar para Dona Joana Brígida". E, alguns, aos prantos, começaram: "Os sonhos mais liiinduxxxx...".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; * &lt;em&gt;A atriz esquecida era Michelle Morgan&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-114297219802388050?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/114297219802388050/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=114297219802388050' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/114297219802388050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/114297219802388050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2006/03/fascinao.html' title='Fascinação'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-114051438295705285</id><published>2006-02-21T06:32:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:47.058-03:00</updated><title type='text'>Formulário</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Para Martha&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;Será a última vez, o último encontro, o último momento da nossa única vida. Acabo de declarar que somos ateus num formulário que perguntava a minha cor. Imagina, a minha cor! Pensava que essa história de cor, de raça, tivesse sido abolida, defenestrada com o fim da ditadura. Aliás, acho que foi até na ditadura, que de bom criou a profissão de empregada doméstica. Não, não criou. Regulamentou, finalmente, porque senão as coitadas tinham que dizer que trabalhavam em casa de família, meio que entre os dentes, cheias de vergonha, sem direito a aposentadoria, licença por problemas de saúde, maternidade, essas coisas.Também nem lembro de outra coisa que a ditadura tenha criado.&lt;br /&gt;Lembro sim. Lembro da Transamazônica. Do Brasil Grande, de cantar "Eu Te Amo, Meu Brasil" e ser repreendida por meu pai, que não dava bronca, não passava pito, não dava esporro. Repreendia.&lt;br /&gt;Então, botei lá no formulário que sou de raça branca. E que somos ateus. E estamos à toa, senão eu não tinha tanto tempo pra pensar na gente. Raça branca... Mais correto era perguntar a qual etnia pertencemos. Deveriam criar um formulário diferente, com novos dados a serem preenchidos. Dignidade. Tem? Sim ou não. Capacidade. Tem? Sim ou Não.Preconceitos. Tem? Sim ou Não. Sexualidade (Hetero, Homo, Bi, Tri, Pan), perspectivas de vida (alta, média, baixa), sensibilidade (aguda, média, inexistente), índice de felicidade, criatividade, espontaneidade (alta, média, baixa, inexistente), interesse. Aí poderiam classificar a pessoa de acordo com critérios que não se limitassem à mediocridade sócio-econômica.&lt;br /&gt;Chega a hora de assinar o formulário, responsabilizando-me por todas as informações acima. Eu queria me responsabilizar por outras informações. Declarar que estou louca por este próximo encontro, que será o último de nossas vidas mesmo. Declarar que pretendo seriamente me apaixonar por você perdidamente e nunca mais me sentir desesperadamente sozinha, chorando de tristeza por não ter em quem me apoiar nos momentos de desvario, de desesperança. Declarar que você é minha última esperança para suportar os momentos de descoberta, aqueles em que o olho brilha de paixão e não vejo ninguém por perto para compartilhar a euforia, para ser cúmplice da comemoração, pra reclamar da cor de meu batom, da mancha que ele vai deixar no colarinho. Não posso declarar nada, isso é só um formulário.&lt;br /&gt;Este formulário deveria ter embutida uma garantia de que você se comprometerá a segurar minha barra nos próximos dias, meses, não há pretensão de que cheguem a anos. De que você estará sorrindo enquanto eu estiver sofrendo muito, de que você mentirá pra mim que a vida é eterna e que eu ficarei boa, que faremos viagens, que dançaremos ao luar, que viveremos apenas na primavera, nunca mais enfrentaremos o verão sufocante do Rio de Janeiro. Este formulário deveria ter também uma cláusula que obrigasse a vida a me avisar o momento certo em que ela se esvairá. Ninguém nos deu o tempo exato de nossa estadia no planeta. Mas eu queria ter a noção de que estou morrendo, diferente de quem pretende morrer dormindo. Eu não quero sentir medo, quero apenas a sensação, o gozo de saber que é a última sensação animal que terei. Será que haverá uma baita descarga de adrenalina?&lt;br /&gt;Hoje à noite, teremos nosso último encontro de gente sã. Vou me embriagar e lhe mostrar o formulário, o pedido de internação, as receitas médicas, os exames. Mas antes, vou me enganar, brincar, dançar até o amanhecer. Com o sol alto, num dia bem brilhante, eu lhe conto tudo, transfiro a você meus problemas, meus cálculos, minhas dívidas. Resolve a vida pra mim?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-114051438295705285?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/114051438295705285/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=114051438295705285' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/114051438295705285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/114051438295705285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2006/02/formulrio.html' title='Formulário'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112726513596884134</id><published>2005-09-20T22:10:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:47.000-03:00</updated><title type='text'>Inverno no Flamengo</title><content type='html'>Abriu a caixa de fósforos e puxou um palito, sem olhar. Já usado. Suspirou. Conviver com aquela mulher era aceitar os palitos queimados guardados dentro das caixas de fósforos. Devia criar um novo hábito: abrir a caixinha, olhar e pinçar um fósforo ainda virgem. Seria mais fácil do que se irritar toda a vez que precisava acender o aquecedor.&lt;br /&gt;No começo, ria quando encontrava os fósforos queimados dentro da caixinha. Mas este começo ficara muito distante, junto com o enlevo que a voz dela lhe provocava. A casa atulhada de panos, de enfeites. A ele cabia apenas aproveitar, sentir o perfume dela invadindo seu armário, os cabelos dela se emaranhando em seu peito, os vidros de perfume dela nos armários, bolas de madeira e sachês distribuídos por todos os cantos escuros, que deveriam ter cheiro apenas de madeira, de livros, de tintas, de matérias duras, não voláteis, nunca abstratas.&lt;br /&gt;Quando ela saia do banheiro, as paredes estavam suadas, transpirando o vapor, recendendo a perfume de sabonete, de xampu, de bolinhas amarelas, laranjas ou douradas que ela jogava na banheira para aqueles demorados banhos dos quais já participara, em tempos de corpos rijos, beijos intensos, imensos, gargalhadas altas, ninguém iria ouvir e daí se ouvissem? Às vezes acendiam velas em volta da banheira nas noites mais frias, mesmo com o risco de se queimarem com as chamas, o que acontecera duas ou três vezes, eram desastrados. Na banheira se refrescavam nas noites quentes do Flamengo, noites sem vento algum, noites em que as plantas murchavam, em que não havia som. Era no meio do banho que chegava o temporal e tinham que correr molhados pela casa para fechar as janelas às gargalhadas.&lt;br /&gt;Com o correr do tempo, ela se tornara servil. Primeiro aos filhos, que se apossaram da banheira, da cama, de cada espaço que deveriam ter preservado. Os bebês eram tão carentes, tão manhosos, se acalmavam na água, um não podia sequer ouvir o barulho da ducha do chuveiro que tirava as roupas e se apresentava no boxe, pulando como um animalzinho, feliz com a possibilidade de se refrescar. Era difícil convencê-los a permanecer em suas camas nas noites de verão. Queriam o frescor do ar condicionado que só estava instalado no quarto do casal. Nunca sentiu saudades do tempo em que precisavam fazê-los adormecer, aqueles seres minúsculos e insones, sempre dispostos a brincar até a exaustão absoluta, disputando a atenção dos pais.&lt;br /&gt;Preparar os banhos de banheira, função que dividiam antes das crianças, passou a ser atribuição unicamente dela, que, vez por outra, o convocava a entrar na água, quando os pequenos estavam fora, à tarde, em casa de amigos ou com os avós. Parecia que ela o recompensava por cuidarem dos filhos lado-a-lado. Depois, o cansaço deu vez à preocupação, eram bons garotos, mas havia drogas, más companhias, moças prontas a darem o golpe da barriga. A casa se esvaziou rapidamente, os meninos saindo, era hora de retomarem o espaço usurpado por tanto tempo. Ela se aposentou e passou a fazer aulas de cerâmica, pintura em porcelana, ponto-de-cruz, tricô, tudo que mexesse com as mãos e criasse pequenos troféus para justificar sua utilidade.&lt;br /&gt;A banheira resistiu até o neto mais moço ficar grande demais para querer utilizá-la. Uma reforma botou abaixo o banheiro e um box largo, com corrimões foi montado apesar de seus protestos. Ela não o ouviria de qualquer maneira, perdera parte da audição e insistiu em que tornassem a casa segura para a velhice que se aproximava. Nela, a velhice se instalara, os cabelos não aceitavam sequer as tinturas que costumavam colori-los, o corpo se tornara flácido, a pele ressecada. Ele percebera os próprios fios grisalhos no dia em que fora obrigado a se aposentar. Pretendia aproveitar o tempo ocioso para conhecer o mundo, porém descobriu que ela tinha planos de acompanhá-lo, o que iria encarecer as viagens, em primeiro lugar. Não, agora teria uma vida de tédio absoluto, com visitas esporádicas dos filhos e netos, caminhadas no Aterro, sempre com a mulher, com aquela velha ao lado.&lt;br /&gt;Foi à cozinha procurar fósforos. O rádio da empregada tocava um samba medíocre.&lt;br /&gt;- Ih, doutor, não tem fósforo, não. Esqueci de comprar hoje cedo, mas se o senhor quiser, vou lá no botequim comprar uma caixa.&lt;br /&gt;- Não precisa.&lt;br /&gt;Saiu da cozinha furibundo.&lt;br /&gt;- Ô, meu amor, por que essa carinha amarrada?&lt;br /&gt;- Acabaram os fósforos, queria tomar banho.&lt;br /&gt;- Outro, meu velho?&lt;br /&gt;- Outro?&lt;br /&gt;- Você tomou dois banhos hoje. Não precisa mais, não.&lt;br /&gt;- Esqueci.&lt;br /&gt;- Vem ver o jornal pra esperar o jantar.&lt;br /&gt;Se ainda houvesse uma banheira, se ela não tivesse a mania de guardar fósforos queimados dentro da caixinha ele não ficaria confuso. Sentou-se na poltrona, deu a mão a ela. O jantar ia demorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Em 5 de setembro de 2005, no Anjos de Prata.&lt;br /&gt; &lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112726513596884134?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112726513596884134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112726513596884134' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112726513596884134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112726513596884134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/09/inverno-no-flamengo.html' title='Inverno no Flamengo'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112726500988726920</id><published>2005-09-20T22:08:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.925-03:00</updated><title type='text'>Horas paradas</title><content type='html'>O único lugar do mundo em que há tempo para sentir dores musculares, espasmos abdominais, o peso das pálpebras, a pressão da barriga lutando contra a força do tecido que a cobre e a segura no lugar. O silêncio existe, não é intenso, mas está presente. Para aproveitar, melhor chegar cedo e fingir uma discrição que não permita ao outro descobrir o que se acumulou de serviço.&lt;br /&gt;Sonhar em fazer supermercado não é sonho, é vazio existencial de quem precisa ficar aqui para ganhar um dinheiro que não cobre as contas no fim do mês. Passar horas em completa paralisação de idéias, sorrindo para quem fala sobre um trabalho que não atinge a alma. Passar horas imaginando a vida besta de quem está em volta.Sentir as fisgadas na cabeça, enxergar pontos negros, escrever incessantemente, fingindo, pretending, como é lindo este verbo em inglês, muito mais sonoro e poético do que em português.O pescoço range, a garganta coça, bolos de ar passeiam pelo tronco opado. O encantador dicionário eletrônico sempre abre com vocábulos doces, animadores: "confraternização", "amizade", "simpatia", aplacando os dissabores, reduzindo a insipidez dessas horas que não evoluem, que não se transformam em passado, mas são o presente perene, imperecível, perpétuo, que jamais se dissolvendo, jamais se transfigurando em futuro. Ler o dicionário como se consultasse verbetes imprescindíveis para a transcrição de tarefas inócuas que os vizinhos cumprem ou simulam executar diligentemente. As bolas de ar comprimem o esôfago, sopros de vento inundam os olhos. O sol se escondeu, o amanhã chegará daqui a pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicado em 19 de setembro de 2005, no site Anjos de Prata&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112726500988726920?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112726500988726920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112726500988726920' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112726500988726920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112726500988726920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/09/horas-paradas.html' title='Horas paradas'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112508464863173243</id><published>2005-08-26T16:26:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.866-03:00</updated><title type='text'>Alizar e Aduela</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/1600/43.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/320/43.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Segurar a porta no meio do terreno não fazia o menor sentido pra mim, mas como o Alexandre sempre gostou de planejamentos detalhados que a gente não compreendia muito bem, enfim, aparentemente que algo solene dependia daquela porta solta na paisagem, como um quadro de Magritte. Então, ele se postou dentro daquela floresta esquisita de árvores ressequidas, na verdade um bosque, porque tinha sido tudo plantado num descampado que fora, originalmente, um pasto de um sítio vendido em loteamento. Ficou segurando a porta e o que nós chamávamos de portal, mas que o Alexandre explicou ser o alizar e a aduela da porta. A estrutura parecia que ia despencar a qualquer momento, mas o Alexandre conseguiu firmar tudo, abrindo a porta e segurando a maçaneta, como se estivesse recebendo uma visita.&lt;br /&gt;Na verdade, ele estava era escorando o portal, o pórtico, o alizar, seja lá o nome que tivesse, com o ombro, posando pra sair no filme. Dava para ver que era pesado, mas eu não ia deixar o Joel ajudar, porque, convenhamos, um menino de 12 anos não ia correr o risco de se machucar naquela madeira toda, de entrar farpa na mão da criança, de acontecer um acidente, pegar tétano, principalmente naquela lonjura para onde o Alexandre inventara de levar a maldita porta com o alizar/aduela/pórtico/portal.&lt;br /&gt;A única pessoa entusiasmada com a cena era a Luciana, que pensava ainda que a casa seria dela, porque o Alexandre estava apaixonado por ela e queria se esconder naquele fim de mundo com a baranguinha. Luciana se oferecia para ajudar a segurar a porta, para tirar fotos, para mexer com a câmera de vídeo. E eu lá, otária, doida para cair fora, imaginando quando na vida voltaria a encontrar um banheiro decente, porque fazer xixi no mato nem pensar, já me aconteceu uma vez só, mas eu estava nos Andes, de madrugada e não tinha jeito, ia acabar me molhando toda. Agora ali, perto de Mauá, dava pra agüentar um tanto e procurar um hotelzinho pra ir ao banheiro, claro.&lt;br /&gt;Só quando chegamos lá é que atinei por que Luciana se enfiara no passeio da família. A verdade? Eu só fui para não pegar mal. Não gosto de mato, não gosto de frio, nem gostava mais do Alexandre. O Joel, tadinho, gostava muito. Gostava, do verbo não gosta mais tanto assim, não, que meu filho não é besta, aprendeu como dói o desprezo, mesmo de um picareta igual ao pai dele. Então, acabei enfrentando estrada com o Alexandre dirigindo, agüentando a alegria forçada da Luciana que concordava com todas as observações do Alexandre, se oferecia para dirigir e entoava canções idiotas com Joel. Se eu falasse alguma coisa, ela demonstrava uma aprovação exuberante, soltando um risinho nervoso. Eu já devia ter desconfiado que alguma coisa havia entre aqueles dois. As gargalhadas cúmplices, os comentários sobre gente do escritório, a desculpa esfarrapada de que ela queria aproveitar a carona para comprar cachecol baratíssimo em Penedo...&lt;br /&gt;Como eu não teria muita paciência para aturar sozinha o Alexandre, nem reclamei quando ele me perguntou o que eu achava da companhia da Luciana. Mal a conhecia, tinha visto a moça uma vez, na praia, admitido que o corpo era bonito, o rosto bem sem gracinha.&lt;br /&gt;- Daqui a um ano, esta porta se abrirá para uma sala toda em madeira, com sofás e poltronas aveludadas, quentinha, igual a um chalezinho europeu – bradou Alexandre para a câmera que Luciana empunhava – Aqui será o quarto do Joel, aqui, o quarto principal, aqui, o quarto de hóspedes, a dispensa, a cozinha – ia Alexandre enumerando, enquanto passava pelo terreno. A porta, àquela altura, já tombara no solo.&lt;br /&gt;Então, Alexandre desceu o barranco do terreno, Luciana atrás, gravando e rindo, dando gritinhos. Entrei no carro e procurei as chaves. Queria ligar o carro para acender um cigarro, mas a chave estava com Alexandre. No banco de trás, vi uma pasta colorida, dessas de guardar trabalhos escolares. Me estiquei e abri, sem saber por que Joel trouxera aquilo. Não era de Joel. Tinha a escritura de um terreno vizinho ao nosso. O comprador do terreno era Luciana. Chamei Joel.&lt;br /&gt;- Vamos adiantar e amarrar a porta no teto do carro, que eu quero ir de uma vez.&lt;br /&gt;- Ah, mãe, olha o peso.&lt;br /&gt;- Deixa de ser frouxo, garoto, vamos lá!&lt;br /&gt;Amarrada a porta no carro, precisava da chave.&lt;br /&gt;- Pede a chave do carro pro seu pai.&lt;br /&gt;- Pra quê?&lt;br /&gt;- Quero ligar o ar, ora. E diz pra mandar os documentos, que daqui a pouco ele cai no rio e molha tudo. Estão no bolso dele.&lt;br /&gt;Alexandre mandou documentos, casaco, tudo. Liguei o carro, mas antes rasguei a escritura do terreno da Luciana.&lt;br /&gt;- Vambora, Joel.&lt;br /&gt;- E eles, mãe?&lt;br /&gt;- Entra no carro, filho. Depois, eles se viram.&lt;br /&gt;- O que está acontecendo, mãe?&lt;br /&gt;Arranquei os documentos do carro do bolso do casaco. Joguei o casaco pela janela e só reencontrei Alexandre na audiência de conciliação, oito meses depois. Alexandre e Luciana construíram um chalé descomunal no centro dos dois terrenos. Nosso terreno ficou no nome de Joel, em usofruto do pai. A burra da Luciana não sabia que a construção era do Joel também e que ela, um dia, terá que vender tudo e ficar apenas com a metade que lhe cabe, porque o Joel não vai ser besta e deixar essa história barata. Nem aquela porta maldita eles puderam usar no chalé, o que obrigou Alexandre a refazer todo o planejamento dele, que, segundo contou ao Joel, não incluía ir morar no apartamento da Luciana, na Tijuca, pois ele disse que o casamento deveria ser mantido pelo bem do Joel, que necessita muito da figura paterna. Mas o Joel é guerreiro e um menino muito generoso. Foi dele a idéia de deixarmos a porta perto de uma favelinha, na descida da serra. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112508464863173243?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112508464863173243/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112508464863173243' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112508464863173243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112508464863173243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/alizar-e-aduela.html' title='Alizar e Aduela'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112362405584353187</id><published>2005-08-09T18:46:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.799-03:00</updated><title type='text'>Lilás</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/1600/15.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/320/15.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Saltou do carro e sentiu o pé afundar-se na lama. Forçou o olho para baixo até ver que a barra do vestido já estava suja. Viu mal, é verdade, apenas supôs e concluiu que aquela massa úmida se grudava no tecido.&lt;br /&gt;- Vai, vai em frente.&lt;br /&gt;No momento em que o modelo fora escolhido, não gostou, teve uma sensação ruim. Detestava lilás, porque a mãe nunca falava lilás com “S”, mas apenas “lilá”. Ridículo a mãe ficar louvando o feitio do vestido “lilá”, que era a cor favorita da avó e, naturalmente, da puxa-saco da prima. Até gostava da prima, não gostava era do puxa-saquismo dela. A queridinha da avó, a queridinha dos tios, a queridinha dos pais, a queridinha de todos. Feia, coitada, como era feia. Boazinha, porque não existe feia que não seja boazinha. E chata, porque não há boazinha que não seja chata.&lt;br /&gt;O sapato estava encharcado e definitivamente estragado. Que se danasse, não pretendia mesmo usá-lo outra vez, sapatilha branca com detalhes bordados em lilás, que começara a esgarçar quando Cenoura, de smoking branco e gravata lilás, pisara em seu pé, dançando valsa. A avó desenhara o vestido, com uma saia bem cheia, naquela mistura de tafetá e tule. As outras treze infelizes, algumas gordas, duas magrinhas de dar pena, uma com a maior pinta de sapatão, que nunca usara um vestido antes, formavam, a seu lado, um grupo coeso de balas de festa de aniversário de criança. Aquelas balas que são embrulhadas em papel de seda colorido.&lt;br /&gt;- Chegamos.&lt;br /&gt;Finalmente. Ia se sentar, mas aonde? Durante o trajeto, sentira que o caminho tinha uma vegetação estranha, que arranhava seus braços em alguns momentos, e, em outros era suave, parecendo plumas. Enxergar realmente, nada, embora percebesse a claridade.&lt;br /&gt;Qual momento fora o mais patético da festa? A coreografia que os casais fizeram, braços esticados em frente ao corpo como dançarinos de tango ao som de “Missão Impossível” seguida pela entrada da prima com o tio? Para a dança com o pai, a prima trocara o vestido lilás por outra criação inspirada da avó, em branco e rosa, com pluminhas nos braços e na barra da saia. Escondeu o rosto no ombro de Cenoura, cujos cabelos pareciam ainda mais estranhos com o efeito da gravata borboleta lilás no pescoço e um lencinho lilás no bolso. O pesadelo que a prima vestia era drapeado na bunda. Como a avó fizera aquilo com a menina? Um pouco abaixo da bunda vinha uma abertura com acabamento em plumas, claro.&lt;br /&gt;Depois que o tio e a prima dançaram “Como é Grande o Meu Amor por você”, fugiu do salão com Cenoura. Entraram num dos carros estacionados. Cenoura tinha uma garrafinha de uísque. Nenhum dos dois gostava muito de uísque, mas disfarçava o cheiro do cigarro.&lt;br /&gt;- Ai, toma cuidado com a porra do vestido.&lt;br /&gt;- Ué, tira ele que é melhor, vai acabar rasgando.&lt;br /&gt;- Nos seus sonhos, meu amor, nos seus sonhos. Aqui, só com vestido, ora! Depois, chega alguém e eu tô pelada? Tá doido?&lt;br /&gt;A venda, na verdade a gravata de Cenoura esticada em seus olhos, incomodava, pinicava. O homem fez com que sentasse no chão úmido. Queria saber de Cenoura, mas teve medo de perguntar. A venda era a garantia de que eles não pretendiam matá-la.&lt;br /&gt;- Pára aí agora. Ninguém vai fazer nada com você. O seu namoradinho vai conseguir o que a gente quer, tá? Fica quietinha.&lt;br /&gt;Assentiu com a cabeça. Começava a esquentar. Ouviu os passos do homem se afastando. Quando encontrasse Cenoura não sabia se iria dar-lhe um abraço ou um tapa. Botou a mão nos olhos, afrouxou a venda. Apoiava as costas na madeira de um barraco, no meio de um capinzal. O homem desaparecera.&lt;br /&gt;Quando o sol estava bem acima de sua cabeça e a sombra do barraco acabou, tomou coragem para se levantar.&lt;br /&gt;- Moço, eu preciso ir ao banheiro!&lt;br /&gt;Ninguém respondeu. Puxou um pouco da venda. O vestido estava todo sujo e rasgado. Contornou o barraco, olhou pela janela. Não tinha móveis, só um colchão velho no chão. Não sentiu qualquer cheiro, nunca tivera olfato, que sorte. Ficou com a venda, sabe lá se o cara apareceria do nada? Procurou algum sinal de passos em volta do barraco. Resolveu tomar por um caminhozinho no meio do mato. As mulheres dos tempos antigos deviam sofrer muito, com as barras das saias sempre imundas. E elas vestiam um milhão de anáguas também. Tudo sujo, sujo, sapatos sujos, tornozelos sujos. Naquela época ninguém tomava muito banho mesmo. Como é que agüentavam?&lt;br /&gt;Estava no caminho certo, as plantas acetinadas, parecendo lavanda, quase a cor de seu vestido. Ouviu latidos de um cachorro. Levantou o vestido, aqueles quilômetros de tule rodeando sua cintura, andando cada vez mais rápido até o caminhozinho se alargar e aparecerem buracos, insetos voando. Não podia se apavorar, não havia como voltar para o barraco, o jeito era continuar em frente, cada vez mais rapidamente, correndo. Chegou a uma estrada, de asfalto.&lt;br /&gt;Pra que lado deveria seguir? Do outro lado da estrada, mais matagal e morros. Saiu caminhando, torcendo para que desse certo. O vestido começava a ficar quente, o sol queimava seus ombros. Os pés doíam, os sapatos eram muito vagabundos, a sola fininha demais. Botou as mãos sobre os ombros.&lt;br /&gt;A avó ia ficar puta da vida quando soubesse que os homens arrancaram o colar de pérolas de duas voltas, os brincos, os adereços de braço (ela desconhecia a palavra pulseira). Ia tomar tanta bronca, uma sucessão de esporros. A mãe ia querer saber o que estava fazendo no carro com Cenoura, o pai... Apareceu um ônibus, começou a fazer sinal, pular, acenar, mas filho da puta do motorista não parou. Correu atrás do ônibus, caiu no asfalto, o vestido se rasgando, a venda amarrando os cabelos em rabo de cavalo. O ônibus sumiu lá na frente.&lt;br /&gt;Chorou, então, levantou-se e foi na direção que o ônibus tomara. Aproveitou o rasgão no vestido e tirou uma camada de tecido para envolver os ombros. Lembrou-se que o pai contava, quando era pequenininha, que cantar dava coragem. Assoviou o tema de “Missão Impossível”, enquanto negociava mentalmente seu salvamento com Deus. “Vou à missa todos os domingos e vou me confessar. Nunca mais penso mal de minha mãe, nem brigarei com minha prima. Ai, cadê o Cenoura, o que fizeram com ele? Nunca mais vou fumar, nem beber, isso é certo.”&lt;br /&gt;Quando o carro da Polícia chegou, recusou-se a entrar nele. Só aceitou ser levada por outro ônibus, que os policiais pararam.&lt;br /&gt;- Deixa a garota na DP, tá?&lt;br /&gt;- E quem paga a passagem dela? perguntou o motorista.&lt;br /&gt;- Você vai me desacatar, cara? A garota tá apavorada, não quer entrar no nosso carro. Você vai passar na frente da DP, pô!&lt;br /&gt;Sentou-se atrás do motorista. O PM explicou que ia seguir no camburão.&lt;br /&gt;- Sabe como é, se rola assalto aqui dentro, fica perigoso pra todo mundo um policial no ônibus, a gente tem que reagir... Mas o motorista vai deixar você lá na delegacia.&lt;br /&gt;- Onde é que a gente está?&lt;br /&gt;- Nova Iguaçu, perto de Vila da Cava. A delegacia é um pouquinho longe, mas você vai chegar lá. Se fosse no nosso carro, chegava mais rápido. Seus pais já estão indo pra lá.&lt;br /&gt;- Como é que meus pais sabiam que eu estava aqui?&lt;br /&gt;- Um amigo seu, de cabelo vermelho, tá lá desde cedo.&lt;br /&gt;Na delegacia, abraçou a mãe, o rosto sujo de lágrimas e poeira. Lembrou-se que era domingo. Deus tinha que entender seu cansaço. Na outra semana, sem falta, iria à missa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para a comunidade CVG, sobre foto proposta por Cristiano&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112362405584353187?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112362405584353187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112362405584353187' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112362405584353187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112362405584353187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/lils.html' title='Lilás'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112354377934991103</id><published>2005-08-08T20:27:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.739-03:00</updated><title type='text'>Sintonia Cósmica</title><content type='html'>Oriana tinha mania de se apaixonar por homens gordos e casados . "É tara", resmungava a mãe, sabedora dos amores da filha. Úrsula só gostava de fortinhos e gays, que despedaçavam seu coração quando diziam que não tinham o menor tesão por ela. "O que eu fiz pra ter duas filhas tão burras?" perguntava-se Dona Dalva, com todas as esperanças de normalidade sentimental depositadas em Helinho. O rapaz namorava firme uma moça, mas não apresentava à família. "Lógico, com uma família maluca dessas... Uma irmã só quer ser amante. A outra, não quer ter amante, quer amor platônico. E a mãe, coitada, já se fechou pros homens há muito, há muito!"Celeste, namorada de Helinho, era batalhadora. O menino não dizia quase nada sobre a moça. "Deixa, as meninas contam tudo sobre os vagabundos e viciados de quem gostam. Celeste trabalhava como secretária na faculdade "para ajudar a pagar os estudos do irmão mais moço, imagina, que moça de valor". O namoro progredia, Helinho quase não parava em casa. Um dia, Helinho contou que ia se casar. "Com que dinheiro, menino, você mal saiu da faculdade, ainda está ganhando muito pouco, vai morar aonde?", bradou Dona Dalva. Celeste estava grávida.No sábado à noite, céu estrelado, ficaram esperando a noiva no terraço da casa de vila. - Acho que ela é feia, apostava Oriana. "Magra e muito feia". - Ela é preta. Ou, pior, mulata clara, com cabelo pintado de louro farmácia. Secretária é sempre loura de farmácia, garantia Úrsula. - A família aceitou bem a gravidez, mas acho que eles deveriam morar conosco, não com os pais dela e o irmão. Tem muito homem lá. Aqui só tem mulher, Helinho é o homem da casa.A cabeça de Helinho surgiu, vindo da escadaria, seguido por um vulto de mulher. Dona Dalva avançou correspondendo ao sorriso da mulher graúda, pesadona, cabelos compridos de longos cachos que escapavam de um imenso rabo de cavalo.- Menina, Helinho não me disse que Celeste tinha uma mãe tão jovem e bonitona! Mas esses meninos não contam nada mesmo, né?Não contavam mesmo. Nem que a morena radiante, aparentando uns 40 anos, era Celeste, secretária da faculdade, carregando o ultra-som do feto único, de aproximadamente doze semanas de gestação.- ...- Mozão, você não contou sobre a gente? Sua mãe pensou que eu fosse a minha mãe...- Mas você não está grávida?- Aos 42 anos é um milagre, não? A gente ficou tão feliz. Este bebê tinha que vir mesmo. E já temos o nomezinho dele.- ...- Se for menino, Sol, se for menina, Luz.- Bonitos nomes.- É que descobrimos que somos todos cósmicos por causa dos nossos nomes. Oriana vem de Órion, Dalva, da estrela d´alva, Úrsula é a constelação da Ursa Maior, Hélio, o Sol. Eu, o firmamento, minha mãe, a lua, meu pai, Hermes, é Mercúrio, o planeta. Somos cósmicos, viram? Estava escrito que deveríamos nos unir numa só sintonia.- Só tem um porém nessa teoria sua.- Qual?- O pai do Hélio se chamava Roberto.- Por isso ele não está entre nós. Se estivesse vivo, quebraria a sintonia cósmica.Se Roberto estivesse vivo, Oriana não teria coragem de se envolver com homens casados, Úrsula nunca iria gostar de gays, Helinho não teria engravidado uma velha e Dona Dalva não correria o risco de ter mais descendentes estúpidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicado em 08/08/05 em &lt;a href="http://www.gargantadaserpente.com.br"&gt;www.gargantadaserpente.com.br&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112354377934991103?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112354377934991103/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112354377934991103' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112354377934991103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112354377934991103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/sintonia-csmica.html' title='Sintonia Cósmica'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112353015523667029</id><published>2005-08-08T16:40:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.676-03:00</updated><title type='text'>Arranhões</title><content type='html'>Os cartões, as carteiras, as fotografias se multiplicam fora dos armários. O cheiro de naftalina atordoa. Naftalina com papel coberto de fungos, algumas traças, pontos amarelos. Os olhos coçam, a garganta arranha, as narinas se fecham.&lt;br /&gt;As janelas escancaradas, cortinas amarradas e a luz se recusa a entrar naquele quarto recoberto de livros e madeira escura. As mãos estão sujas apenas por abrir tantos papéis dobrados, tantas folhas de jornal, artigos cuidadosamente arquivados para ninguém ler.&lt;br /&gt;Tudo fora planejado com alguma antecedência, mas nunca pensara que um dia abriria aqueles plásticos fechados com alfinetes de costura, que fincam sulcos nos dedos. Os alfinetes roçam a cutícula do dedo anular da mão esquerda. Um local permanentemente ferido, a pelinha se soltando sobre a unha, incômodo eterno.&lt;br /&gt;Por que ela fizera questão de guardar tanta inutilidade? Nada seria aproveitado, ninguém jamais pararia para analisar linhas, letras, páginas amareladas. O destino da papelada era oferecer informações que hoje se obtêm rapidamente com algumas tecladas num computador. Informações vagas, ralas, menos elaboradas que o vocabulário de qualquer artigo daqueles. Informações que se perderão mais rapidamente que as noções de fidelidade e culto à memória do que ela prezava.&lt;br /&gt;Acreditava que encontraria algo que ela deixara no meio dos papéis. Não havia qualquer bilhete, recado, um traço da passagem dela pelo planeta. Os únicos sinais de sua presença estavam no capricho do arquivamento daqueles papéis inúteis.&lt;br /&gt;Seu dever era vasculhar os papéis, se enfronhar nos borrões. Depois, transferir tudo para um imenso saco preto, que seria entregue ao porteiro para vender ao burro-sem-rabo. Os papéis eram tão antigos quanto os burros-sem-rabo.Abriu o último plástico. Examinou os artigos de revistas diversas grampeados conforme o assunto, a maioria sobre cinema. Enfiou tudo no saco preto. Tudo, não. Depositou os alfinetes sobre a mesa, separando os enferrujados. Sobraram 22 sem ferrugem, que guardou na caixa de costura. Um dia poderiam ser úteis.&lt;br /&gt;Reparou então um filete de sangue na mão esquerda. Precisaria tomar antitetânica, não sabia se o alfinete que causara o ferimento estava enferrujado. Mais dolorido mesmo, só o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicado no &lt;a href="http://www.anjosdeprata.com"&gt;www.anjosdeprata.com&lt;/a&gt; - 08/08/2005&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112353015523667029?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112353015523667029/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112353015523667029' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112353015523667029'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112353015523667029'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/arranhes.html' title='Arranhões'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112327160250636973</id><published>2005-08-05T16:51:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.621-03:00</updated><title type='text'>Centro de Estética Se Pelando Toda</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/1600/afogamentodeteresa1.jpeg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/320/afogamentodeteresa.jpeg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/1600/afogamentodeteresa.jpeg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Virilha modelada - R$ 24.&lt;br /&gt;Virilha Cavada + Faixa de Contorno - R$ 23.&lt;br /&gt;Virilha Cavada Simples – R$ 19,50.&lt;br /&gt;Virilha Comum + Faixa de Contorno – R$ 12 reais.&lt;br /&gt;Virilha total – R$ 19 reais.&lt;br /&gt;Ânus – R$ 10 reais.&lt;br /&gt;Como tem gente cabeluda pelaí, pensava a moça que não raspava perna, não fazia sobrancelha, não tinha buço e cujo grande sonho era ter muitos pentelhos, daqueles que parecem uma calcinha peluda cobrindo as vergonhas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112327160250636973?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112327160250636973/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112327160250636973' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112327160250636973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112327160250636973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/centro-de-esttica-se-pelando-toda.html' title='Centro de Estética Se Pelando Toda'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112310343302814091</id><published>2005-08-03T18:07:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.564-03:00</updated><title type='text'>Julho, depois da chuva</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/1600/arco-??ris.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/320/arco-%3F%3Fris.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Basta um solzinho, um céu clarinho sem muitas nuvens para os rapazes alegremente tirarem a camiseta a caminho do trabalho, aquele batalhão de contínuos que inundam a Cidade, de tênis, às vezes mochilas, quase sempre camisetas verde-musgo ou mostarda.&lt;br /&gt;E as moças já voltam a se equilibrar sobre sandálias com plataformas tão altas que não recordo como eu conseguia caminhar calçando aquilo.&lt;br /&gt;Os velhinhos tomam de assalto o calçadão de Copacabana, as peruas saradonas caminham pela orla com calças de moleton, puxando cachorrinhos brancos que tentam enroscar as alças das coleiras nas bicicletas que driblam os invasores da ciclovia.&lt;br /&gt;Mães e criancinhas em férias atravessam tímidas as areias ainda geladas pela chuva da noite anterior.&lt;br /&gt;Dos morros desce gente de pernas fortes, esguias e luzentes, da cor dos olhos que desafiam o jeito reprovador dos habitantes do asfalto, que se alarmam com as roupas tão justas, tão berrantes, tão exuberante daquele povo de pele brilhante.&lt;br /&gt;Homens engravatados reclamam dos ternos azuis marinhos e se escondem sob óculos escuros. Exércitos de mulheres com paletós bege, negros, rosados e verde marcham com pés imprensados em bicos finíssimos.&lt;br /&gt;Camelôs apregoam ofertas de inutilidades essenciais à vida urbana. Malabaristas se amontoam nos sinais de trânsito, disputando a área com vendedores de lenços de papel e balas. Guardas apitam, sem a menor convicção, indicando aos motoristas que avancem quando o sinal fica verde.&lt;br /&gt;Debaixo das cobertas, os vendedores de mate pensam se vale a pena arriscar uma ida à praia, num dia de semana tão chocho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112310343302814091?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112310343302814091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112310343302814091' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112310343302814091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112310343302814091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/julho-depois-da-chuva.html' title='Julho, depois da chuva'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112310322790993446</id><published>2005-08-03T18:06:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.504-03:00</updated><title type='text'>Sua cara entre as pedras do jardim</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/1600/07.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/739/652/320/07.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Um dia vou enterrar seu corpo e deixar a cara aparecendo no meio das pedras do jardim, só porque você odeia a natureza, os bichos, meus gatos, tudo o que eu tentei montar como lar, aquele lar de filme americano que você diz detestar.&lt;br /&gt;Faltavam crianças, mas apenas porque você não as quis. Nossos bichos eram nossos filhinhos, quantas noites não tivemos que velar pela Christie, com aquele caroço no útero, por sua culpa, que mandou castrar o Archibald antes, então, ela não corria perigo algum, era só chato ouvir aquela miação, o chororô todo da coitadinha, doidinha pra dar.&lt;br /&gt;Imagina se a gente fosse igual às gatas, fizesse aquele escândalo, desesperados de tesão, subindo pelas paredes? Mas você se contém, você não sente tesão, só tem desejos. Você não trepa, você faz sexo, porque amor, querido, nunca, isso é frase de filmeco francês e tava na hora de eu parar de ver tanto cinema e viver a realidade, com uma decoração mais adequada a nosso cotidiano sofrido de brasileiros fodidos e pessimamente pagos.&lt;br /&gt;Quer dizer, poucos, como eu, são pessimamente pagos, você pode viver sem a baixaria de submeter-se a salário, trabalhar no que pretende, porque tem paizinho rico, que vai deixar-lhe uma fortuna no dia em que morrer, se é que vai morrer, aquele velho decrépito e anacrônico que nunca me aceitou mesmo. Então eu quero mais é estar entre meus bichos, agora são meus apenas, você fingia que gostava deles, do mesmo modo que fingia gostar de mim. Era adequado, naquela época, ter minha presença a seu lado, não?&lt;br /&gt;Sabe por que sua cara vai aparecer entre as pedras? Para que eu possa pisá-la todos os dias, quando for me sentar no jardim tão bonito que plantei para você ter algum verdinho para olhar, em vez de apenas um muro de cimento horroroso. Sim, é um jardinzinho, é pequeninho, tem um metro de largura por vinte de comprimento, mas é meu jardim, que eu pensava ser o nosso jardim. A gente tomava café olhando o jardim, recebia os amigos olhando as plantas e eu realmente acreditava que seríamos felizes cercados pela beleza.&lt;br /&gt;Cheguei a planejar nossa morte, velhinhos, juntos, numa praia, aposentados, num pacto bonito, mas parecido com a “Morte em Veneza”, do Visconti, o Dirk Bogarde tendo um enfarte ou derrame, sei lá, olhando o mar. Mas como ia ser difícil marcarmos nossos enfartes para o mesmo momento, pensei em tomarmos veneno indolor, bebendo chá com uísque, sentados em nossas espreguiçadeiras, aristocraticamente em frente ao oceano, numa praia de ondas dolentes, quase ao pôr-do-sol.&lt;br /&gt;Depois, quando decidi matar você, quis envenená-lo com qualquer droga que o deixasse bem grogue mesmo, dar-lhe uma marretada no cocuruto, jogar seu corpo da Niemeyer, qualquer coisa que fosse bem horrorosa, mas ia acabar meus dias numa penitenciária qualquer, ninguém ia achar que era desvario da senilidade, do abandono, do descompasso de nossa vida. Por isso, melhor era matar com veneno mesmo e enterrar o corpo no jardim. Só que a profundidade do jardim é mínima. O jeito é só tirar você de dentro de mim, desistir do assassinato, ver suas roupas dentro das malas, seus livros e CDs encaixotados, um chamego em Archibald e Christie, enquanto espero o homem da mudança vir pegar seu piano, suas estantes, a escrivaninha e seu computador. Isso porque você não quer levar a cama, que eu vou martelar todinha, queimar o colchão e comprar um futon.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112310322790993446?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112310322790993446/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112310322790993446' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112310322790993446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112310322790993446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/08/sua-cara-entre-as-pedras-do-jardim.html' title='Sua cara entre as pedras do jardim'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112191212089257531</id><published>2005-07-20T23:13:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.449-03:00</updated><title type='text'>Impaciência</title><content type='html'>Odeio quando bate 3 da tarde. Odeio também quando bate 3 da manhã. Não que eu tenha algum problema, masdói imaginar que ainda faltam três longas horas para o dia acabar. Não o meu dia. O meu dia começa dali a três horas.&lt;br /&gt;E quando acordo às três da manhã, sei que preciso aproveitar só mais um pouquinho, porque meu dia vai começar às 6 da manhã.&lt;br /&gt;A tarde não foi feita para viver, mas para dormir, cochilar na rede, na cama macia, no chão gelado de cerâmica em dias abafados. Ficar enroscado no edredom, no cobertor.&lt;br /&gt;Não deve existir ninguém que goste do meio do dia, do meio da noite, daquela expectativa. É ruim em qualquer profissão; talvez os projecionistas de cinema gostem do meio da tarde.&lt;br /&gt;No meio da madrugada, bom é poder acordar e ler, ver mais televisão, acordar quem está ao seu lado e fazer amor pra poder cair no sono de volta. Mas o meio da tarde, o meio da noite são ruins no meio da vida. Por isso, hoje, às três da tarde, que o barulho não vai incomodar a ninguém, acabo com a espera pela outra metade da vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112191212089257531?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112191212089257531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112191212089257531' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112191212089257531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112191212089257531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/07/impacincia.html' title='Impaciência'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112191199526295458</id><published>2005-07-20T23:11:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.395-03:00</updated><title type='text'>Feitiço</title><content type='html'>O avião parou na praia e eu me encolhi bem quietinha na poltrona.&lt;br /&gt;Todos desceram, até o pessoal de bordo, me convidando a acompanhá-los. Era um país estranho, que oportunidade, tinha duas horas de espera até abastecerem, limparem a nave e sair o vôo. Continuei sentada, olhando a praia pela janela, agarrada a meu livro.&lt;br /&gt;Muitos homens entraram. Negros, enormes, com bonés de tricô coloridos na cabeça. Riam muito, cantavam em um dialeto que não compreendia. Calaram-se ao me ver encolhida em meu cantinho.&lt;br /&gt;Interpelaram-me. Eu fiz que não entendia. Indicaram as portas, mostraram a praia. Balancei braços e cabeças, eles se ofereceram para me carregar no colo, pensavam que eu era paralítica. Expliquei, então, em inglês e francês, que não poderia ficar naquela praia por duas horas. Na hora em que eu pisasse na areia, nunca mais veria meus pais.&lt;br /&gt;Os negros riram, dentes brancos ou dourados. Limparam os corredores, a cabine do piloto, os banheiros, a primeira classe, cantando uma canção dolente queme embalou e afastou o temor.&lt;br /&gt;É por isso, meus filhos, que vocês não conhecem seus avós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.kirikou.com/tahiti/borabora/" class="link"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://www.kirikou.com/tahiti/borabora/borabora19.jpg" border="0" align="center" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112191199526295458?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112191199526295458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112191199526295458' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112191199526295458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112191199526295458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/07/feitio.html' title='Feitiço'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112187454563814507</id><published>2005-07-20T12:46:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.340-03:00</updated><title type='text'>Receita de texto-legenda</title><content type='html'>Receita&lt;br /&gt;- Estudantes  cariocas lamentam a morte de crianças em guerras de adultos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ingredientes&lt;br /&gt;- 8h30m de uma manhã bonita de outuno carioca&lt;br /&gt;- céu claro&lt;br /&gt;- luminosidade amena&lt;br /&gt;- escola experimental da Zona Sul carioca&lt;br /&gt;- 25 petizes ensandecidos&lt;br /&gt;- 1 globo terrestre&lt;br /&gt;- 1 fotógrafo&lt;br /&gt;- 1 professora&lt;br /&gt;- 1 repórter&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Modo de preparo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- agrupe os mais peraltas próximos ao globo;&lt;br /&gt;- enfileire os mais tranqüilos atrás dos mais traquinas;&lt;br /&gt;- professora: prometa castigos intensos e sucessivos pelos próximos quinze dias;&lt;br /&gt;- fotógrafo: seja amistoso com as crianças;&lt;br /&gt;- repórter: fale ao celular com alguém, finja que é o chefe de reportagem, fique o mais distante da cena para que o fotógrafo não reclame que você está se metendo no trabalho dele;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo de preparo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- de 45 minutos a 1 hora e meia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dicas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- quando o fotógrafo estiver gritando com a oitava peste que tentar roubar uma lente de seu bolso, o repórter interfere, distraindo as crianças, mostrando-se jovial e amigável com os diabretes.&lt;br /&gt;- a professora promete, então, recompensas a todos os que se comportarem com alguma dignidade, pedindo que se lembrem das crianças mortas no Líbano, Iraque, Bósnia, Afeganistão, ou em chacinas na Baixada Fluminense.&lt;br /&gt;- é o momento ideal para o fotógrafo, auxiliado pelo repórter, reunir oito dos menos serelepes em volta do globo, deitar-se no chão e tentar fazer aquela foto mais que manjada das crianças segurando o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observações&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- chegando à redação,  o fotógrafo ameaça pedir demissão se tiver que fotografar mais algum pirralho mimado na vida e o chefe o envia imediatamente para cobrir uma guerra de tráfico no Alemão. A foto das crianças da escola da Zona Sul cai da edição que terá outra mostrando os corpos de três meninos mortos por balas perdidas no tiroteio na favela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para foto proposta no grupo Composição à Vista de Gravura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://images.olgademello.multiply.com/image/2/photos/upload/300x300/" class="link"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.olgademello.multiply.com/image/2/photos/upload/300x300/Qt5hIAoKClAAADDmIx42.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQiUIFiCFsxNVwtBZKX.H8fh6wt9,1HFK2THbW3,o.ctGqYtI1oBnE5yL09AdyPywQqMFGHG1nDje" border="0" align="center" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112187454563814507?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112187454563814507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112187454563814507' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112187454563814507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112187454563814507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/07/receita-de-texto-legenda.html' title='Receita de texto-legenda'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112120255423177393</id><published>2005-07-12T18:01:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.279-03:00</updated><title type='text'>Juntando os cacos</title><content type='html'>Encostou-se, era fim daquela festa estranha, crianças berrando, pulando na piscina, a vida meio nublada, quase tudo limpo, ainda de biquíni, enrolada na canga mais linda de Bali, tão longe da Indonésia, aqui, no Atlântico Sul.&lt;br /&gt;A porta de vidro não agüentou, os convidados saíram cedo, crianças chorando, tentando voltar para a piscina, talvez fosse chover, a neném de vestidinho e sapatinhos, sonolenta, bebendo a última cerveja possível, a umidade sufocante do verão.&lt;br /&gt;Caiu de costas, vidro estilhaçado, crianças gritando, saindo da piscina, ele histérico, ninguém anda aqui sem sapato, começou a chuva, a cerveja escorria no chão, junto com os cacos, o copo intacto, o chão escorregadio.&lt;br /&gt;Apoiou-se nas mãos, olhar furioso do velho, crianças falando, entrando no banheiro, ele com a vassoura no chão, era chuva de vento, um filete de sangue correndo ao lado da espuma da cerveja.&lt;br /&gt;Levantou-se sem ajuda, cotovelo arranhado, crianças chamando, entrou no chuveiro, farpas beliscando a pele, xampu na cabeça dos meninos, um toró desabando lá fora, mais filetes de sangue descendo pelas pernas.&lt;br /&gt;Secou as crianças, lasquinha de vidro num dos ombros, crianças a abraçando, entraram debaixo das cobertas, perfume de lavanda no quarto, cantigas para ninar os pequenos, ele cansado, dormindo no quarto da neném, chuvinha fina,  sangue estancando.&lt;br /&gt;Acordou cedo, dois caquinhos surgiram sob o pé esquerdo, telefonou para o vidraceiro, crianças cantando, saindo para o jardim, o olhar raivoso do velho, ele acompanhando o trabalho do operário, céu azul, sol causticante.&lt;br /&gt;Pagou o serviço, era o fim daquela vida estranha, crianças chilreando, entrando no carro, quase tudo arrumado, ele entendeu a despedida, viajou de biquíni para não sufocar com o verão aqui do Atlântico Sul, dia nublando, com possibilidade de pancadas de chuva no decorrer do período. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sobre Foto 6 - Comunidade à Vista de Gravura - Multiply&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://images.olgademello.multiply.com/image/2/photos/upload/300x300/" class="link"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.olgademello.multiply.com/image/2/photos/upload/300x300/QtQvGwoKClAAACefgAc1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQiUIFiCFsxNVwtBZKX.H8fh6wt9,1HFK2edkEB.N6FJtNfeNes35PaAc,,BPQvC8jQahi2LyP9VL" border="0" align="center" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112120255423177393?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112120255423177393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112120255423177393' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112120255423177393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112120255423177393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/07/juntando-os-cacos.html' title='Juntando os cacos'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112058370448727595</id><published>2005-07-05T14:11:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.175-03:00</updated><title type='text'>A Última Volta dos Sacis Siameses</title><content type='html'>Andar com três pernas sempre foi nossa brincadeira mais atrevida, a única em que nos uníamos, acho que para encher o saco da Mamãe, que vivia histérica e ficava mais histérica ainda quando saíamos pulando como sacis siameses, unidos pelos braços, fingindo ser pernetas.&lt;br /&gt;Acho que a brincadeira começou quando Tiê e Téo me viram tentando andar pela primeira vez, pequenininha. Eu não me lembro, nem eles, nem Mamãe dizia quando começara. Só gritava que isso a irritava tremendamente, porque a brincadeira sempre acabava mal, com os três se derrubando, tropeçando uns nos outros. Enroscávamos os braços na altura dos ombros, eu, a menorzinha, no meio, muitas vezes agarradas a eles pelas cinturas. Levantávamos as pernas esquerdas e saíamos pulando. Mas Tiê, canhoto, se confundia e trocava de perna depois de algumas balançadas, até que desmoronássemos. &lt;br /&gt;Alguns se machucavam feio. Téo rompeu um ligamento aos 11 anos. Tiê quebrou um dente quando tentou morder minha cabeça numa das quedas. Eu fraturei um dedo da mão. Tiê quebrou a perna direita e ainda precisou tomar pontos, porque levou um baita arranhão ao cair em cima de um ferro pontudo. Foram os piores episódios.&lt;br /&gt;O fim da brincadeira éramos nós três despencados no chão, um chorando, os outros rindo ou dois gemendo, um rindo. A verdade é que nunca estávamos chorando todos. Alguém sempre ria daquilo. Então, chegava Mamãe, apavorada, gritando, desembolando o montinho de crianças, tentando vislumbrar qual estava mais ferido, correndo com o que chorava mais alto para um banho antes de carregar para o médico, que iria nos dar injeção, mas não só no mais avariado, em todos, prometia Mamãe, furiosa, mandando os menos machucados se lavarem sozinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguíamos de táxi para a Clínica Guadalupe, em silêncio sepulcral. Eu amava a expressão “silêncio sepulcral”, que Mamãe nos lera em muitas histórias de terror. Imaginava o cemitério, o Santo Sepulcro, Jesus sofrendo pelos pecados de todos nós na véspera de sua morte. Mamãe dizia que nossos anjinhos-da-guarda choravam sempre que fazíamos besteira e preocupávamos nossos pais. Mamãe dizia que nossos anjinhos-da-guarda eram tristes depressivos, porque nós vivíamos às turras e que, no trajeto até a Clínica Guadalupe, tínhamos de seguir em silêncio sepulcral, refletindo sobre a dor que causávamos nos anjinhos-da-guarda.  &lt;br /&gt;Foi na terceira ida à Clínica Guadalupe que descobrimos que Mamãe mentia para nos aterrorizar, porque nem o Tiê, que sempre se arrebentava mais, precisava tomar antitetânica todas as vezes que se estrepava. Os que não se machucavam seriamente iam junto porque Mamãe considerava o acidente responsabilidade de todos.&lt;br /&gt;Papai só se preocupou quando Téo rompeu o ligamento da perna ou do tornozelo, nem me lembro mais. Temia que o menino ficasse manco. Eu e Tiê pulávamos atrás dele o tempo todo gritando “Aleijadinho, aleijadinho” e Mamãe não falava mais na dor dos anjinhos-da-guarda, porque Tiê fora expulso do colégio dos padres e estudava então num Papai-Pagou-Passou, cheio de playboyzinhos e maus elementos, o único que aceitou matriculá-lo. Eu ainda estava no colégio de freiras e morria de medo de Deus, de Jesus no Monte das Oliveiras, depois o sepulcro aberto por obra e graça do divino Espírito Santo, mas não acreditava que continuasse com um querubim como anjo-da-guarda. Aliás, como eu respeitaria um anjo-da-guarda bebê? E os anjos de espada na mão, vingadores, guerreiros, esses não impunham o menor respeito, com aquelas caras de ... anjos, bonitos, cabeludos, mas meio andróginos demais para sugerir que fossem os executores da ira de Deus. Eles seriam adoráveis como namorados encantados, príncipes, nunca assassinos a mando do Criador. Mamãe puxou-nos pelos cabelos e nos castigou duramente. Fomos obrigados a acompanhar Téo às sessões de fisioterapia na Clínica Guadalupe, que nos considerava os clientes padrão, numa época em que os planos de saúde não existiam, exceto os do Banco do Brasil, onde Papai, felizmente, trabalhava.&lt;br /&gt;Quando eu estava com 16 anos, Téo, completamente recuperado do problema do ligamento, teve a idéia genial de fazermos uma fantasia de aqualoucos pernetas siameses para sairmos na Banda de Ipanema. Conseguimos uma costureira que confeccionou a estranha roupa que nos mantinha unidos, exceto quando um precisava ir ao banheiro. Quem estivesse apertado, tirava sua parte da roupa e deixava seu maiô listrado vazio. Foi muito divertido durante a concentração da Banda, mas ao deixarmos a Praça General Osório a caminhada se tornou pesada e difícil, principalmente para mim. Imprensada entre Tiê e Téo, evoluía para frente, apavorada, já que cada um de meus irmãos, encantados por diferentes foliãs, tentavam puxar nosso grupo cada qual para seu lado. No meio do barulho, no meio daquele cabo de guerra em listras amarelas e negras, acabei tombando para trás, arrastando Tiê e Téo.&lt;br /&gt;Naquele sábado, duas semanas antes do Carnaval, fomos levados para o Hospital de Ipanema – a Clínica Guadalupe já fechara –, extraordinariamente atendendo,  na Emergência, quem se despedaçavam na Banda. Téo era o único maior de idade, mas quando nossos pais apareceram para nos resgatar de carro, a bronca foi igualmente dividida, como sempre. Tiê teve três dedos fraturados, Téo voltou a estourar os ligamentos do pé direito, enquanto eu quebrei um pulso.&lt;br /&gt;Trinta anos depois, tiramos os sapatos e fomos caminhar pela Praia de Ipanema num sábado à tarde, depois de enterrarmos Mamãe no mesmo túmulo onde meses antes havíamos sepultado Papai. Nenhum de nós pensava mais em anjos-da-guarda, talvez algum quisesse acreditar em Deus. Como sempre, a idéia veio de Téo.&lt;br /&gt;- Vocês ainda sabem fazer os sacis siameses?&lt;br /&gt;- Eu tive três filhos. Não sei se tenho equilíbrio.&lt;br /&gt;- Você nunca teve equilíbrio. Nós éramos o equilíbrio.&lt;br /&gt;- Ué, nós também tivemos filhos e nem por isso...&lt;br /&gt;- Vocês carregaram os filhos na barriga, imbecis?&lt;br /&gt;- Não, né, Tininha, você tá num mau humor...&lt;br /&gt;- Vamos tentar, vamos tentar?&lt;br /&gt;Tentamos. Seria a derradeira vez, sabíamos. Talvez fôssemos ensinar a nossos filhos. Ou não, para não gritarmos histericamente quando eles caíssem e arrebentassem ligamentos, esfacelassem ossos ou dentes. Na areia da praia seria mais difícil para nos firmarmos do que em solo firme. Largamos os sapatos, nos abraçamos, jogamos um pé para trás. Como sempre, Tiê se confundiu, lançou o pé esquerdo entre o meu e o de Téo, que pisou em mim até desabarmos, rindo. Ninguém estava machucado, mas comecei a chorar, enquanto os dois ficavam em silêncio sepulcral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Para a Comunidade Composição à Vista de Gravura, sobre a Foto proposta por Alexei Gonçalves&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://images.alexeigoncalves.multiply.com/image/11:projetocvg/photos/6/600x600/" class="link"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.alexeigoncalves.multiply.com/image/11:projetocvg/photos/6/600x600/1.JPG?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQkhQIXdBBY6fxvxiu0UEd.,h8NCDMmzp0AOQCHUBfSfzkf0T7Of1LDQ=" border="0" align="center" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112058370448727595?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112058370448727595/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112058370448727595' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112058370448727595'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112058370448727595'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/07/ltima-volta-dos-sacis-siameses.html' title='A Última Volta dos Sacis Siameses'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-112023403496218763</id><published>2005-07-01T13:02:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.112-03:00</updated><title type='text'>US$ 20 mil</title><content type='html'>Faltam R$ 60 mil em minha vida ou uns vinte mil dólares, mais ou menos. Eu não sei mais a cotação do dólar, sei apenas que em meu nome, realmente, só tenho contas. O carro ficou em nome de meu pai, que já morreu e então é carro de um fantasma, o que leva a uma situação irreversível: não posso vender o veículo, pois não abri inventário só por causa do carro. O apartamento está em nome de uma mulher que desconheço, a primeira proprietária do imóvel, que o vendeu à maluca que me vendeu. Sem registrar nada em cartório, só com papéis sem grande valor legal e muita boa vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus filhos têm o nome do pai. O meu entrou no meio. Eles também têm a cara do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, em meu nome estão as contas. E as dívidas. Só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu nome estão as responsabilidades também, mas não dou conta delas. Nem das contas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tentei mudar e pintar o cabelo de vermelho. Fiquei parecendo o Bozo, o Ronald McDonald. Depois da burrada que fiz sozinha, em frente ao espelhinho do banheiro, corri a um cabeleireiro e tingiram meu cabelo de castanho avermelhado. Paguei com cheque sem fundos. Quer dizer, ficou sem fundos porque ele custou TAAAAAnto a ser depositado que, quando entrou na conta, já estava sem dinheiro. Foi um inferno, reapresentaram e ainda não tinha fundos, meu nome foi pro Banco Central pela quarta ou quinta vez. E aí, resgatei o cheque, paguei em dinheiro, fui ao Banco, escrevi uma cartinha de próprio punho ao Banco Central, fiquei amiga do gerente e comecei a tirar um monte de empréstimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num mês eu pago diversas contas e deixo várias sem pagar. Tem umas que não posso atrasar nunca. Condomínio, jamais, ou me tomam o apartamento. Se tomarem, vai ser muito engraçado, porque está tudo no nome da outra mulher, acho que já morreu também, quem vai ficar com ele? A mulher não tinha herdeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu sei quem quer minha casa. O síndico. Ele tem o maior olho, maior olho grande mesmo, no meu apartamento. Sempre dá um jeitinho de entrar lá em casa. E as pimenteiras da sala secam depois das visitas dele. Ele quer ver se eu fiz reforma, como está a reforma, como estão as paredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento está na mesma situação irreversível do carro. Não posso mexer em nada porque não tenho como regularizar a situação legal dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antigamente, eu não era assim. Se atrasava o pagamento de uma conta, porque havia esquecido de ir ao banco, corria lá e, enquanto estava pagando, dizia ao caixa, como quem não quer nada: "A gente viaja e deixa as contas pra empregada pagar, mas essa gente... ". Os caixas nunca falavam nada, às vezes me olhavam de soslaio, daquele jeito de quem sabe que está ouvindo uma mentira, uma desculpa esfarrapada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o carro, então? Tudo pago direitinho, multas, impostos, nada atrasado. Jamais subornei guarda, jamais. Até hoje, isso continua assim, não me vi em situação de subornar guarda. Na verdade, me vi, sim. Fui parada numa blitz, não tinha documentos atualizados. O guarda ia levar meu carro. Chorei, mas aceitei o destino. Era o fim da minha longa convivência com o carro. Não foi. O guarda se comoveu com minhas lágrimas discretas. Disse que a blitz tinha um sentido não apenas repressivo, mas educativo. Falou para eu regularizar a documentação do carro. Meus filhos já estavam tirando a cadeira de praia da mala do carro. Guardamos tudo, fechamos a mala, continuei chorando e saímos dali. Nunca arrumei a documentação do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorei porque fiquei emocionada, sim, mas também porque sabia que homem não resiste a lágrimas. Sempre dá certo. Agora eu torço pra não pegar nenhuma blitz. De noite, eles não param a gente, porque vêem que é mulher e mulher fica histérica em blitz. Mas de dia, eles querem extorquir e eu não vou dar dinheiro pra vagabundo ladrão, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas com vinte mil dólares na minha conta eu pagava os impostos atrasados, o condomínio atrasado, quitava os empréstimos e ainda botava o apartamento no meu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então, pintava o cabelo de preto azulado, ia para Roma sem filhos, sem responsabilidades, sem o síndico, sem as contas. Igual ao Cacciola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicado em &lt;/em&gt;&lt;a href="http://www.gargantadaserpente.com"&gt;&lt;em&gt;www.gargantadaserpente.com&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;, em 30/06/2005&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-112023403496218763?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/112023403496218763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=112023403496218763' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112023403496218763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/112023403496218763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/07/us-20-mil.html' title='US$ 20 mil'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111954133676530986</id><published>2005-06-23T12:34:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:46.053-03:00</updated><title type='text'>Samba no Volga</title><content type='html'>O calor impedia o ar condicionado de funcionar. Lógico que estava melhor dentro do salão, grande, claro e quente. Não há como circular ar algum, resfriar coisa alguma nesta cidade se o teto fica a menos de três metros do chão. Principalmente se o teto é recoberto por telhado de zinco, plástico, fosse lá o material mais barato que houvesse e o mais quente, certamente.&lt;br /&gt;Por que qualquer sede de associação de moradores de favela tem que ter telhado de material incandescente? O jeito era ficar olhando o pôster enorme retratando um porto em São Petersburgo que o carnavalesco pusera em cima de um tripé para inspirar os sambistas. Tinha tanta neve que dava frio só de olhar.&lt;br /&gt;Por que, em nome do quê, estou nesta reunião de sambistas? Quem inventou esta maldita matéria sobre o passo a passo da montagem de um desfile de escola de samba? Pra que esta besteira vai sair em série todos os domingos antes do carnaval? Não vai vender mais jornal, todo mundo que se interessa por carnaval já está careca de saber como se monta o desfile, ora! Não dá pra entender o prestígio que o Carlos Grilhões têm com a chefia, que engole todas as pautas malucas que ele inventa. E também não dá para entender por que EU, que cubro Educação, tenho que substituir o Grilhões, que pegou dengue e só deve voltar a trabalhar daqui a dois meses, porque a mulher dele vai ter filho e eles resolveram emendar a licença pela doença com férias.&lt;br /&gt;O carnavalesco conseguiu equilibrar a réplica de uma coroa no tripé, em frente à foto, e explicava:&lt;br /&gt;- Nós vamos mostrar a Rússia dos czares, a Revolução Comunista, a ditadura socialista e depois a queda do comunismo soviético. Este é o pano de fundo para a imigração dos russos que fugiram da revolução para o Brasil, aonde eles vêm fabricar vodca e se encantam com o Carnaval carioca. Então, precisamos de uma ala com os czares, Rasputin, os ovos Fabergé. E o contraponto com o momento brasileiro. A gente mostra a arte engajada soviética e a influência na Semana de 22, vocês entendem?&lt;br /&gt;Não, ninguém entendia. Os sambistas, olhos arregalados para o carnavalesco, mantinham-se em silêncio. Foi aí que o diretor de honra resolveu falar:&lt;br /&gt;- Nós conseguimos fechar o patrocínio com um fabricante de vodca. Vai ser uma festa linda, todo mundo vai beber vodca de graça. Vocês só têm que arrumar um sambas legais pra disputa. Enredo tem. O Vavá não está delirando, ele encomendou uma pesquisa com umas professoras de História.&lt;br /&gt;- Ô, Noninho, só tem um poblema – atalhou um dos sambistas – Ninguém aqui gosta de vodca. A gente prefere cachaça, cerveja. Vodca até que é gostosinha, mas prefiro uma branquinha da gente mesmo.&lt;br /&gt;- Não dá pra mudar o enredo pra história dos negões, da cachaça, arrumar um patrocínio com um alambique qualquer?&lt;br /&gt;- A gente falava dos reis de Portugal, usava coroa, mas falava de coisa da gente, do Brasil, pô. Babaquice isso de viver fazendo samba sobre gringo que vem pro Brasil.&lt;br /&gt;- Português é gringo que veio pro Brasil.&lt;br /&gt;- Crioulo também é gringo, só que é preto, ô babaca. Brasileiro mesmo, só índio.&lt;br /&gt;- E eu não gosto dessa história da gente ter que falar mal do comunismo, não. Principalmente com o PT no governo. Acaba que a gente perde ponto por causa disso. Troca a vodca por cachaça, sim…&lt;br /&gt;Com a discussão, aumentava o calor no salão. Eles poderiam marcar a reunião para a sede do Centro, um galpão imenso, bonito, arejado. Mas não, preferiam fazer ali na comunidade. Sábado à tarde, depois do almoço. É, foi pra isso que você resolveu fazer jornalismo, minha filha. Pra trabalhar sábado à tarde, na Zona Norte, acompanhando um debate que, certamente, não se esgotaria ali. O fotógrafo mostrou-lhe o relógio de pulso. Coitado, suava em bicas, o colete escuro carregando tantas lentes que, se ele caísse de mau jeito, poderia se cortar todo, imaginava a repórter. A matéria de domingo já estava mais do que fechada, baixada, rodada. Mas precisava escrever alguma coisa para o texto-legenda de segunda-feira.&lt;br /&gt;- A senhora quer um refrigerante?&lt;br /&gt;- Uma água, por favor.&lt;br /&gt;Noninho pediu atenção novamente. Entrava o mais velho dos compositores da escola, mal humorado.&lt;br /&gt;- Só tem um jeito de me convencer que essa história de samba russo é boa.&lt;br /&gt;- Qual, Caniço?&lt;br /&gt;- Vamos ver se a vodka dos caras é tão boa quanto nossa cachaça.&lt;br /&gt;Às 6 da tarde, a disputa foi encerrada com a vitória da vodca, ao som de sambas-enredos de todas as escolas cariocas.&lt;br /&gt;- O que você vai escrever? Perguntou o fotógrafo com a cabeça para fora da janela do carro.&lt;br /&gt;- Um texto-legenda dizendo que eles se reuniram para degustar vodca e cachaça.&lt;br /&gt;- Degustar? Aqueles cachaceiros me deram uma surra. Ainda bem que as velhas tias apareceram com aquele bifinho, arroz, feijão e farofa. Senão, eu não sei como ia estar de pé. Cara, eu sempre pensei que fosse bom de copo. Você por acaso contou quantas garrafas foram bebidas?&lt;br /&gt;- Perdi a conta, mas acho que ficou em torno de 35.&lt;br /&gt;- De cachaça e de vodca?&lt;br /&gt;- É.&lt;br /&gt;- Como é que a vodca ganhou a disputa?&lt;br /&gt;- Eles estavam bêbados. Todos eles. Menos o Vavá, que só bebeu refrigerante.&lt;br /&gt;- Como é que você consegue dirigir?&lt;br /&gt;- Eu só bebi água.&lt;br /&gt;- Mesmo? Eu acho que terei uma das piores ressacas de minha vida.&lt;br /&gt;- Quis bancar o simpático, deu nisso.&lt;br /&gt;- Ah, mas quem ganhou a coroa de resina foi você, czarina da tundra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Compositores da Acadêmicos do Bom Retiro reuniram-se ontem à tarde&lt;br /&gt;para uma tarefa saborosa: descobrir qual bebida tem mais afinidade com&lt;br /&gt;o paladar brasileiro – a vodca ou a cachaça. A sugestão foi de Caniço, o&lt;br /&gt;veterano compositor e principal puxador de samba da escola. No próximo&lt;br /&gt;carnaval a Bom Retiro contará, em seu enredo, a história dos imigrantes&lt;br /&gt;russos que fundaram, no Paraná, a Naziazinska, a mais conhecida vodca&lt;br /&gt;de fabricação nacional, que patrocinará o desfile da escola. O carnavalesco&lt;br /&gt;Vavá espera contar, na comissão de frente, com bailarinos do Balé Kirov. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Em 23/06/05 - para o grupo Composição à vista da Gravura, do Multiply. Foto proposta por Graça&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a class="link" href="http://images.mariag.multiply.com/image/4:projetocvg/photos/5/1200x120/"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.mariag.multiply.com/image/4:projetocvg/photos/5/1200x120/1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQkqm2wksetGC28SnVa6neKuUNk2w5qSyuQPWilPpW8ffqSTYWPe2gT0=" align="center" border="0" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111954133676530986?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111954133676530986/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111954133676530986' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111954133676530986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111954133676530986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/samba-no-volga.html' title='Samba no Volga'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111930068944125490</id><published>2005-06-20T17:46:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:45.995-03:00</updated><title type='text'>Boletim de Ocorrência</title><content type='html'>Com os tornozelos machucados ela ainda conseguiria caminhar, mas sem enxergar, o olho fechado, um ferimento no supercílio sangrando muito, era impossível. Sempre imaginara a expressão "um ferimento no supercílio", que lera em colunas esportivas sobre lutas de boxe. Não imaginava que o corte no supercílio não dói, o susto ao receber o golpe, sim, é doloroso. O telefone estava próximo, conseguiu discar o número da mãe, que não entendia nada do que falava.&lt;br /&gt;Chovia fino, por sorte ia haver pouca gente na rua. Acordou o menino, vestiu-lhe um casaco, jogou uma capa de chuva nos ombros e foi esperar o táxi que chamara na porta do prédio. Lembrou-se dos óculos escuros e que pareceria maluca, à noite, de óculos escuros. Ou então, pensariam que estava chapada. E estava mesmo. Chapada de espanto. Não era dor, era o absurdo da situação.&lt;br /&gt;- Se eu fosse você, dele não ia querer nada, nem o filho - repetiu a mãe, enquanto aguardavam o médico para o exame de corpo de delito num banco sujo e gelado.&lt;br /&gt;- Ele não merece o filho.&lt;br /&gt;O menino fora deixado com a tia, sonolento, sem entender por que havia sido tirado da cama. Dormia como uma pedra, era uma tarefa hercúlea despertá-lo todos os dias para ir ao colégio. Não ouvira os berros do pai. Nem precisava escutar o discurso do medico que examinava a mãe numa sala gelada, sem lençol na maca.&lt;br /&gt;- Madame, não se encabule, não. Tem homem de tudo quanto é jeito batendo em mulher. Detesto homem covarde. Ainda lhe digo, a senhora deu sorte. Não tem nenhuma fratura, só hematomas e cortes superficiais, das porradas nos olhos. Desculpe, madame, a gente usa esses termos aqui mesmo. Mas a senhora vai ver que esse seu marido, é seu marido, não é? Vai ver que ele vai pedir pra voltar. Homem que bate pouco gosta da mulher. Só está no desvario, entende? Não teve violência sexual, né? Não preciso fazer exame completo na senhora?&lt;br /&gt;- Não, foi só isso mesmo.&lt;br /&gt;- A senhora tome um banho morno em casa, pode tomar também um analgésico e um antidistônico, vou lhe receitar aqui. Só para relaxar essa musculatura. Em dois dias não sentirá mais dor.&lt;br /&gt;- E os olhos?&lt;br /&gt;- Isso, moça, fica roxo por uma semana ou mais. Infelizmente. A senhora, daqui a pouco, pode disfarçar com pintura, sabe? Vai dar queixa na delegacia?&lt;br /&gt;- Vou.&lt;br /&gt;- Então, vai de uma vez, antes de se arrumar toda. Antes até de falar com advogado. Pega bem, não parece caso pensado. Mas, fique certa, pode tomar nota: ele volta, ele vai se arrepender.&lt;br /&gt;De volta à rua, a chuva aumentava. Queria um banho, mas era melhor seguir o conselho do médico meganha e rumar para a delegacia.&lt;br /&gt;- Ainda bem que é tarde, o distrito deve estar vazio.&lt;br /&gt;- Mamãe, não é distrito, é delegacia. Deixou de ser distrito há muitos anos.&lt;br /&gt;- Distrito ou não, é lá que você vai parar e dizer que apanhou do monstro do seu marido. E aquele médico, hein?&lt;br /&gt;- O que tem o médico?&lt;br /&gt;- Mais parecia policial. Olha como o homem falava! Um filósofo, um filósofo...&lt;br /&gt;A capacidade de rir voltava aos poucos, embora a cabeça doesse muito.&lt;br /&gt;- Eu quero ir a um médico de verdade depois que isso tudo acabar. Fazer radiografia, fazer um eletro.&lt;br /&gt;- Tá sentindo alguma coisa no coração? Ah, não me venha com bobagem, menina, sem sentimentalismos baratos. Tenha fibra nessa hora!&lt;br /&gt;- Quero fazer um eletro de cabeça, Mamãe. Sei lá se afetou alguma coisa aqui por dentro.&lt;br /&gt;- Afetou nada. O cretino bebe e vira a mão em você, mas você vai segurar a onda, filha. Eu estou do teu lado e, se pudesse, se tivesse ainda teu pai vivo, ah, aí eu queria ver ele machucar teus olhos. Por que esse desgraçado machucou teus olhos? Logo o que você tem de mais bonito...&lt;br /&gt;A delegacia estava vazia, como previra dona Belmira. Dois rapazes registravam o roubo de um carro.&lt;br /&gt;- Eu queria registrar uma agressão.&lt;br /&gt;- Trouxe o "rezistro" do corpo delito?&lt;br /&gt;- Já fiz, mas o médico disse que manda pra cá depois, quando vocês requisitarem. Só tenho o protocolo do registro.&lt;br /&gt;- Já serve. Não devia ter ninguém pra bater o rezistro a essa hora. A senhora devia ter deixado pra fazer tudo amanhã de manhã. Sabe por quê? Porque eu já estou careca de fazer rezistro de agressão e depois a vítima vem retirar a queixa. É aquele velho ditado, em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.&lt;br /&gt;- O senhor vai fazer o registro?&lt;br /&gt;- Vou, lógico que vou, mas a senhora é bem capaz de chegar aqui amanhã, pedindo pra retirar a queixa. Olha bem, foi o marido, não foi? Deixa pra lá, madame. Depois ele compra uma roupa bem bonita pra senhora, uma jóia, uma viagem.&lt;br /&gt;Não dava nem para lançar um olhar fulminante na direção do rapaz que devia ser policial, mas parecia mais um atendente. Um dos olhos estava quase fechado. Na saleta, contou a briga como um autômato para outro homem, que se apresentou como detetive.&lt;br /&gt;- Cheguei em casa às 11 da noite, meu marido reclamou do horário e me bateu. Depois, saiu, eu peguei meu filho e fui para a casa de minha mãe.- Ele a ameaçou com alguma arma, porrete, algum objeto?&lt;br /&gt;- Não.- Ele falou alguma coisa?- Falou.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Não me lembro.&lt;br /&gt;- É melhor a senhora se lembrar. Isso, se a senhora for persistir com a queixa.&lt;br /&gt;- Ele disse que eu não prestava.&lt;br /&gt;- Só isso?- Que eu tinha amantes.- E a senhora tem a ... algum amigo especial?- Isso tem a ver com o registro?&lt;br /&gt;- Bom, seria um motivo que ele iria alegar e ....- Isso é para ser discutido com advogado, não é?&lt;br /&gt;- O melhor é a senhora dizer tudo o que lembrar, o que for verdade, para entrar no processo e não haver contradição posterior, compreende, senhora? - Compreendo, sim.&lt;br /&gt;- E então?&lt;br /&gt;- Eu fui jantar fora com um amigo.&lt;br /&gt;- Seu namorado?- Eu preciso explicar o relacionamento agora?&lt;br /&gt;- Não, mas...&lt;br /&gt;- Um amigo. - Algo mais aconteceu?&lt;br /&gt;- Aconteuceu. Eu cheguei em casa, ele reclamou e avançou em mim.&lt;br /&gt;- Disse alguma coisa?&lt;br /&gt;- Disse que eu ... disse, sim. Disse que queria me cegar. Que ninguém mais ia olhar pros meus olhos. - Tá vendo? Isso é importante. A senhora falou algo muito importante, mesmo que vá retirar a queixa amanhã. A senhora vai guardar este depoimento, carimbado, protocolado, assinado e seu marido saberá que fez coisa errada, entendeu, dona Ângela? Maldade mesmo, seus olhos são bonitos, são azuis?&lt;br /&gt;- Verdes.- Ah, a cor dos ciumentos, não é? Não tem uma história, um ditado sobre os ciumentos de olhos verdes?&lt;br /&gt;- O ciúme é um monstro de olhos verdes. Acho que é de Shakespeare.&lt;br /&gt;- Eu gosto dele, daquela história de Romeu e Julieta, não foi ele que escreveu?&lt;br /&gt;Ao deixar a delegacia, o dia amanhecia.&lt;br /&gt;- Agora, vamos pra casa, você toma um banho, descansa, vai a um médico de manhã, pega uma licença, porque não dá para trabalhar com esses olhos assim, depois, vamos logo falar com o advogado.&lt;br /&gt;A chuva recomeçou, as dores vieram, então, intensas. Os tornozelos, a barriga, os ombros. No táxi, hesitou antes de dizer o endereço da mãe.&lt;br /&gt;- Ué, você achava que ia para sua casa? Melhor ficar comigo hoje, eu lhe arrumo uma roupa e ...&lt;br /&gt;- Mamãe, eu não tenho mais casa.&lt;br /&gt;E escorreu a dor, junto com a chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Anjos de Prata, em 20/06/05&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a class="link" href="http://www.magnumphotos.com/LowRes2/TR3/S/3/B/W/"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://www.magnumphotos.com/LowRes2/TR3/S/3/B/W/PAR130804.jpg" align="center" border="0" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111930068944125490?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111930068944125490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111930068944125490' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111930068944125490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111930068944125490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/boletim-de-ocorrncia.html' title='Boletim de Ocorrência'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111923712263778251</id><published>2005-06-20T00:10:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:45.939-03:00</updated><title type='text'>Domingo</title><content type='html'>Quando o telefone toca, seja a hora que for, Frida entra em pânico e, antes de correr até o aparelho, passa no quarto da mãe, sai checando pelo resto da casa e já sabe que, do outro lado da linha, vão lhe dizer aonde a velha está. Começa, então, o diálogo que já sabe de cor.&lt;br /&gt;- A dona Frida, por favor.&lt;br /&gt;- Sou eu.&lt;br /&gt;- Tem uma senhora aqui dizendo que é sua mãe.&lt;br /&gt;- É ela, sim, desculpe.&lt;br /&gt;Anota o endereço, pega a bolsa, a chave do carro. Se a avó anda sozinha perto de casa, os comerciantes, os porteiros dos outros edifícios trazem. A única vez em que se envergonhou foi quando o mendigo da rua, Horácio, acompanhou a mãe até o prédio. Quis dar um presente a Horácio, algum dinheiro para uma refeição, ele recusou.&lt;br /&gt;- A senhora me compra charuto, que sua mãe fumou três dos meus.&lt;br /&gt;- Mamãe!!!!&lt;br /&gt;Consultou o médico. Três charutos não fariam diferença na capacidade pulmonar de uma mulher de 82 anos? Fariam, se fossem diários. Esporadicamente, não. Foi a uma tabacaria perguntar quanto custavam charutos para repor o estoque de Horácio. Espantou-se com o preço.&lt;br /&gt;- A senhora quer charuto para fazer macumba ou para apreciar?&lt;br /&gt;O tipo de gente que se escolhe para trabalhar nessas lojinhas hoje em dia... Também, é vendedor de drogas legalizadas, quer o quê?&lt;br /&gt;Encontrar a mãe obedece ao mesmo roteiro. Ela sentada confortavelmente, comendo pão com manteiga quentinho, tomando chá ou mate que os desconhecidos bondosos lhe oferecem. Os olhares compadecidos dos samaritanos para a mãe, os olhares e de reprovação para a filha. A mãe, doce, calçando os tênis do neto, calças compridas, uma faixa na cabeça, a profusão de cores das roupas que ia tirando dos armários da família inteira, os brincos que comprara no México, quando era mais jovem, viajava em excursão e o avião quase foi apanhado por um furacão.&lt;br /&gt;- Frida!!! É a minha filha!!!! Ela é linda, não é? Muito boa moça, muito dedicada à família e ao trabalho. Precisa parar é de me controlar. Já controla meu dinheiro, meus remédios. Agora não quer me deixar passear.&lt;br /&gt;- Desculpem o incômodo, hoje era folga da acompanhante, foi só eu me distrair um pouquinho.&lt;br /&gt;- A gente entende.&lt;br /&gt;Não, ninguém entende. Ninguém entende a angústia, o horror de reconhecer naquela figura caricata a mulher alegre, exuberante, que carregava os filhos para o Jardim Botânico, os museus, as galerias de arte. Que tinha paixão por Diego Rivera, que perdera o olfato e não sabia dosar a quantidade de perfumes doces e fortíssimos que usava. O viço desaparecera, coberto por rugas que surgiram ao mesmo tempo que o primeiro diagnóstico viera, quinze anos antes. Ela iria se esquecer das coisas, perder a noção do que era próprio e impróprio. Depois, se esqueceria dos nomes, dos filhos, da história.&lt;br /&gt;- Você é muito controladora, Frida. Precisa ter mais confiança em mim. Eu sei voltar para casa. Você é muito boa, Frida.&lt;br /&gt;- Aperta o cinto, Mamãe.&lt;br /&gt;- Não gosto do cinto.&lt;br /&gt;- É necessário, Mamãe. Igual em avião.&lt;br /&gt;- Eu queria um cigarrinho.&lt;br /&gt;- Você não fuma, Mamãe.&lt;br /&gt;- Fumo, sim. Você não sabe da minha vida. Aliás, menina, você tem que parar de se meter comigo desse jeito, ouviu? Me respeite, eu tenho idade para ser sua mãe.&lt;br /&gt;- Você é minha mãe.&lt;br /&gt;- Sou? Eu tava brincando, boba. Eu sei. Quero tomar sorvete de flocos com cereja ao maraschino e biscoito champanhe, de sobremesa.&lt;br /&gt;O ritual continua ao levá-la para dentro de casa, tirar sua roupa, ligar o gás, abrir o chuveiro, ajudá-la a banhar-se. Secar seu corpo flácido, passar hidratante, arrumar seus cabelos.&lt;br /&gt;- Agora, Mamãe, fica quietinha aqui na sala. Daqui a pouco, os meninos chegam da praia e vão ter muita história para lhe contar. Você conta sua aventura de hoje.&lt;br /&gt;- Eu quero o sorvete.&lt;br /&gt;- Mais tarde eu peço ao Diego pra comprar.&lt;br /&gt;E a mãe fala. Verificar todas as portas, as trancas, esconder as chaves. Durante a semana é pior, o telefone toca no trabalho e ela imagina que a mãe se escondeu no armário da dispensa. Agora, ela é pequena, perdeu também a estatura. A mãe caminha atrás de Frida, com um CD na mão.&lt;br /&gt;- Quero ouvir.&lt;br /&gt;- Liga lá, Mamãe, você sabe.&lt;br /&gt;- Quero que você ligue para mim.&lt;br /&gt;Um dia, ela vai emudecer e ficar na cama o tempo inteiro. E nesse dia, Frida sentirá saudades do cansaço de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para o Multiply - em 19/06/05, em cima desta foto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;a class="link" href="http://images.olgademello.multiply.com/image/2/photos/upload/300x300/"&gt;&lt;center&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/center&gt;&lt;a class="link" href="hhttp://images.silksatin.multiply.com/image/4:projetocvg/photos/3/600x600/"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.silksatin.multiply.com/image/4:projetocvg/photos/3/600x600/1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQkqm2wksetGC28SnVa6neKtNSjDplioUxKxx0q72JsnbrXhS.SBJzu8=" align="center" border="0" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a class="link" href="http://images.silksatin.multiply.com/image/3:projetocvg/photos/3/600x600/"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.silksatin.multiply.com/image/3:projetocvg/photos/3/600x600/1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQvo2v,9ZHjXGY0dCa7XMrJdTv6qdo41DGSr9jbR4nXvUADiF8x0v1VE=/" align="center" border="0" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a class="link" href="http://images.silksatin.multiply.com/image/3:projetocvg/photos/3/600x600/"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.silksatin.multiply.com/image/3:projetocvg/photos/3/600x600/1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQvo2v,9ZHjXGY0dCa7XMrJdTv6qdo41DGSr9jbR4nXvUADiF8x0v1VE=" align="center" border="0" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a class="link" href="http://images.silksatin.multiply.com/image/3:projetocvg/photos/3/600x600/"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.silksatin.multiply.com/image/3:projetocvg/photos/3/600x600/1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQvo2v,9ZHjXGY0dCa7XMrJdTv6qdo41DGSr9jbR4nXvUADiF8x0v1VE=/" align="center" border="0" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111923712263778251?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111923712263778251/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111923712263778251' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111923712263778251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111923712263778251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/domingo.html' title='Domingo'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111923687617989535</id><published>2005-06-20T00:07:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:45.879-03:00</updated><title type='text'>Bloomsday</title><content type='html'>Você precisa parar de insistir em andar assim, toda garbosa, toda pensando que está garbosa, de sapato alto. Vai cair, vai cair, vai ter que prestar tanta atenção... Por que não calçou tênis, não usa umas havaianas, sapato baixinho, sapatilha de velha? Porque, minha filha, convenhamos, você está VELHA. Não importa sua idade, não importa seus filhos pequenos, a expectativa de vida aumentada pro povo brasileiro. Você está VELHA mesmo.&lt;br /&gt;Pense bem, enquanto calcula cuidadosamente seus passos sobre os paralelepípedos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) Você paga IPTU, IPVA, INSS, IR, ICM, ISS e o que houver mais?&lt;br /&gt;2) Você sabe o que querem dizer todas essas siglas?&lt;br /&gt;3) Os paraíbas de obra mantêm-se calados à sua passagem?&lt;br /&gt;4) Antes de se calçar você pensa o quanto vai doer seu pé no fim do dia?&lt;br /&gt;5) Você gosta de ficar em casa?&lt;br /&gt;6) Você fica a maior parte do tempo em casa?&lt;br /&gt;7) Seus amigos estão ficando chatos e inconvenientes?&lt;br /&gt;8) Seu marido ficou careca e/ou barrigudo e/ou insuportável?&lt;br /&gt;9) Suas amigas só falam em plástica e comida?&lt;br /&gt;10) Todo mundo da sua idade sabe cozinhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se respondeu “sim” a qualquer uma dessas perguntas, querida, você envelheceu. Não adianta pensar que virou uma mulher em sua plenitude, porque não existe plenitude feminina enquanto houver um só artigo informando que a mulher mais desejada do mundo tem 25 anos, namora o Leonardo DiCaprio e pesa 35 quilos sem fazer dieta. Melhor parar de pensar em tanta bobagem e carregar direito essas compras, equilibrando-se com galhardia, porque garbo, amiga, ficou para a Greta, que, dizem, era sapata, como muitas mulheres lindas, charmosas, ricas e inteligentes são.&lt;br /&gt;Caminhar no lusco-fusco, de saltos altos, nessas vielas de Santa Teresa, é uma temeridade. Mas você insiste, porque ainda há uma chama a impelindo a persistir na vida. E também, finalmente surge sua empregada, que a viu estacionando pela janela, para carregar parte dos pacotes. Parte nada, ela morre de pena de você e de sua batalha, porque sabe que você é uma senhora cansada de tanto mourejar e correr atrás de tudo, sobre os saltos altos, perigando despencar nesses paralelepípedos.&lt;br /&gt;Jure que vai se mudar para um lugar mais plano, com supermercados mais próximos, com muitos supermercados, sem tanta ladeira, sem tanta necessidade de usar carro para qualquer coisa na vida. Jure só mais uma vez, reclame do peso das compras, de seu peso, de não sentir muito tesão por seu marido, mas também nem o menor tesão pelo Leonardo DiCaprio, que é uma gracinha e parece tanto com seu filho do meio, de saber que nunca mais na vida você terá 35 quilos, o que aconteceu há cerca de 35 anos.&lt;br /&gt;Pior que andar neste lusco-fusco foi dirigir até aqui com todo o brilho nos olhos. Parece que um padre, no fim da Renascença, criou este termo, para definir a luminosidade do fim da tarde, que tanto incomodava os viajantes desde então. E isso naquela época, em que o transporte era por cavalos. Bem, deveria ser mais difícil ainda pensar nos olhos dos bichos e nos olhos do condutor... Enfim, não dá para dirigir neste horário, desiste, é um problema só seu, de seus olhos cansados, envelhecidos, extenuados.&lt;br /&gt;Hora boa para chegar em casa, tomar uma chávena de chá inglês, e começar, finalmente, neste Bloomsday, a cumprir uma promessa firmada anos atrás, quando este dia passou a ter algum significado na vida de quem gosta de estar acima de um viver tão vulgar: ler “Ulisses”.&lt;br /&gt;Faz isso e aproveita alguma coisa da maturidade antes que a velhice roube sua mente também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://images.silksatin.multiply.com/image/8:projetocvg/photos/1/600x600/" class="link"&gt;&lt;center&gt;&lt;img src="http://images.silksatin.multiply.com/image/8:projetocvg/photos/1/600x600/1.jpg?enctoken=UmFuZG9tSVbUU4r9RJIgQk9A8vai537zIPxCMFWaSYKBEjqbiE,0HvLLsO8.,oYH1m9TaPa45lg=" border="0" align="center" /&gt;&lt;/center&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111923687617989535?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111923687617989535/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111923687617989535' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111923687617989535'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111923687617989535'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/bloomsday.html' title='Bloomsday'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111903243875855283</id><published>2005-06-17T15:04:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:45.818-03:00</updated><title type='text'>Sintonia cósmica</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;        Oriana tinha mania de se apaixonar por homens gordos e casados . “É tara”, resmungava a mãe, sabedora dos amores da filha. Úrsula só gostava de fortinhos e gays, que despedaçavam seu coração quando diziam que não tinham o menor tesão por ela. “O que eu fiz pra ter duas filhas tão burras?” perguntava-se Dona Dalva, com todas as esperanças de normalidade sentimental depositadas em Helinho. O rapaz namorava firme uma moça, mas não apresentava à família.  “Lógico, com uma família maluca dessas... Uma irmã só quer ser amante. A outra, não quer ter amante, quer amor platônico. E a mãe, coitada, já se fechou pros homens há muito, há muito!”&lt;br /&gt;           Celeste, namorada de Helinho, era batalhadora. O menino não dizia quase nada sobre a moça. “Deixa, as meninas contam tudo sobre os vagabundos e viciados de quem gostam. Celeste trabalhava como secretária na faculdade “para ajudar a pagar os estudos do irmão mais moço, imagina, que moça de valor”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           O namoro progredia, Helinho quase não parava em casa. Um dia, Helinho contou que ia se casar. “Com que dinheiro, menino, você mal saiu da faculdade, ainda está ganhando muito pouco, vai morar aonde?”, bradou Dona Dalva. Celeste estava grávida.&lt;br /&gt;          No sábado à noite, céu estrelado, ficaram esperando a noiva no terraço da casa de vila.           &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           - Acho que ela é feia, apostava Oriana. “Magra e muito feia”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           - Ela é preta. Ou, pior, mulata clara, com cabelo pintado de louro farmácia. Secretária é sempre loura de farmácia, garantia Úrsula.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           - A família aceitou bem a gravidez, mas acho que eles deveriam morar conosco, não com os pais dela e o irmão. Tem muito homem lá. Aqui só tem mulher, Helinho é o homem da casa.&lt;br /&gt;           A cabeça de Helinho surgiu, vindo da escadaria, seguido por um vulto de mulher. Dona Dalva avançou correspondendo ao sorriso da mulher graúda, pesadona, cabelos compridos de longos cachos que escapavam de um imenso rabo de cavalo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           - Menina, Helinho não me disse que Celeste tinha uma mãe tão jovem e bonitona! Mas esses meninos não contam nada mesmo, né?&lt;br /&gt;           Não contavam mesmo. Nem que a morena radiante, aparentando uns 40 anos, era Celeste, secretária da faculdade, carregando o ultrassom do feto único, de aproximadamente doze semanas de gestação.&lt;br /&gt;            - ...&lt;br /&gt;           - Mozão, você não contou sobre a gente? Sua mãe pensou que eu fosse a minha mãe...&lt;br /&gt;           - Mas você não está grávida?&lt;br /&gt;           - Aos 42 anos é um milagre, não? A gente ficou tão feliz. Este bebê tinha que vir mesmo. E já temos o nomezinho dele.&lt;br /&gt;           - ...&lt;br /&gt;           - Se for menino, Sol, se for menina Luz.&lt;br /&gt;           - Bonitos nomes.&lt;br /&gt;           - É que descobrimos que somos todos cósmicos por causa dos nossos nomes. Oriana vem de Órion, Dalva, da estrela d´alva, Úrsula é a constelação da Ursa Maior, Hélio, o Sol, eu, o firmamento, minha mãe, a lua, meu pai, Hermes, é Mercúrio, o planeta. Somos cósmicos, viram? Estava escrito que deveríamos nos unir numa só sintonia.&lt;br /&gt;            - Só tem um porém nessa teoria sua.&lt;br /&gt;            - Qual?&lt;br /&gt;            - O pai do Hélio se chamava Roberto.&lt;br /&gt;            - Por isso ele não está entre nós. Se estivesse vivo, quebraria a sintonia cósmica.&lt;br /&gt;            Se Roberto estivesse vivo, Oriana não teria coragem de se envolver com homens casados, Úrsula nunca iria gostar de gays, Helinho não teria engravidado uma velha e Dona Dalva não teria qualquer descendente estúpido.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111903243875855283?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111903243875855283/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111903243875855283' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111903243875855283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111903243875855283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/sintonia-csmica.html' title='Sintonia cósmica'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111903135837473067</id><published>2005-06-17T15:01:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:45.759-03:00</updated><title type='text'>Intimidade</title><content type='html'>- Não precisa levantar, mãezinha, eu lhe faço uma higiene aí na cama mesmo.&lt;br /&gt;Não precisa levantar? Higiene? Quem é essa maluca que pretende me banhar?&lt;br /&gt;A sogra a ajudou a sentar-se depois que a enfermeira retirou a sonda urinária.&lt;br /&gt;- Vamos botar uma comadre, mãezinha?&lt;br /&gt;Completamente alucinada a enfermeira. E eu é que tomei morfina. Sinalizou que não queria comadre alguma e que iria ao banheiro. O médico recomendara que pouco falasse para evitar gases. A sogra a puxou pelos braços, a enfermeira empurrou-lhe o tronco. Estava de pé. A barriga sumira. Apoiou-se na cama, abraçada à tagarela.&lt;br /&gt;- Não precisava tanto esforço, mãezinha. Que mãezinha corajosa!&lt;br /&gt;- Quero lavar a cabeça - grunhiu.&lt;br /&gt;- Mas eu lavava na cama, menina. Depois, lhe vestia uma camisola linda.&lt;br /&gt;No banheiro, a água não esquentava. A enfermeira ajudou a tirar a gandola, aquela bata ridícula, aberta atrás. Com um olhar, expulsou a sogra.&lt;br /&gt;- Estou saindo, mas não fica com vergonha, querida. Somos amigas, mas pouco íntimas, não é?&lt;br /&gt;Nem íntimas, nem amigas somos.&lt;br /&gt;Sentia-se uma índia velha, peitos imensos, arrastando-se sobre pés cansados. Um ano antes tivera sua vez de ser tocada para fora de um banheiro. Levantara da cama o pai, ainda pesado, quinze quilos mais magro depois da quimioterapia. Encorajava-o com palavras carinhosas, beijinhos no ombro. Chegando ao banheiro, ele a dispensou.&lt;br /&gt;- Daqui, me viro.&lt;br /&gt;Nunca lhe falara tão duramente. Também jamais fora carinhoso, com aquele carinho melado que os pais dispensam às filhas. Ele a carregara no colo quando bebê e até os 7 anos, quando, na madrugada, voltavam de festas, com a mãe. Mas não permitia que ela se sentasse em seu colo. "Vai se acostumar a sentar em colo de homem". A função de carregador de criança havia lhe sido transferida pela mãe, que caíra com a menina, pequenina, tropeçando numa calçada esburacada. Pesada, foi apontada como responsável por uma hérnia no pai no mesmo local onde o tumor se iniciara, quase trinta anos depois.&lt;br /&gt;A água gelada espantou o suor de sua cabeça. A enfermeira continuava ali, querendo passar o sabão líquido em seu corpo.&lt;br /&gt;- Mãezinha, você tem que guardar as forças para amamentar seu bebê.&lt;br /&gt;A mãe não a amamentara. Era filha da geração Nestlé, aquela que era desmamada em uma semana de vida e que antes dos dez anos tirava as amídalas. Haveria alguma relação entre a ausência de leite materno e as amígdalas eternamente inflamadas até serem extirpadas? Sem amígdalas, pedira sorvete de chocolate, mas não sentiu qualquer sabor. Doía tudo, perdera o paladar. Fechou a cara para a enfermeira simpática que trouxera o sorvete e gelatina. Detestava gelatina.&lt;br /&gt;Devolveu o café-da-manhã. Estava limpa, pronta a receber a criança que dormia, não queria mamar. Os seios começaram a pingar. Um enfermeiro tirou-lhe a temperatura, perguntou pela sonda.&lt;br /&gt;- A outra enfermeira levou.&lt;br /&gt;Acostumara-se a ver introdução e retirada de sondas urinárias na mãe, hemiplégica, na cama. A limpeza do orifício da traqueostomia. A sonda gástrica. Os hematomas nas mãos, pés, pernas, braços, veias que não suportavam cânulas, escalpos, invasões a um corpo que cismava em viver, apesar de tantas condições adversas. Acariciava os cabelos ralos da mãe crescendo depois de raspados na última cirurgia, cobrindo o calombo que modificava o formato de sua cabeça antes tão bonita, tão sólida. Às vezes, a mãe abria os olhos, quase sempre cerrados, combinando com o cenho franzido, a boca crispada. Balbuciava sons ininteligíveis, jogava beijos silenciosos. Respondia com beijos em suas mãos calejadas.&lt;br /&gt;A mãe se encolhia quando sentia a presença de uma das enfermeiras. Despediu a mulher ao deparar-se com a mãe nua na sala, na cadeira de rodas.&lt;br /&gt;- Que que tem demais? Aqui só tem mulher e ela nem entende direito o que acontece. Eu estava arrumando a cama.&lt;br /&gt;A menina ensaiou um chorinho. Acomodou-a próxima ao seio, que ela abocanhou com vontade, sugando forte e provocando fisgadas no útero. Passou o indicador na bochecha rosada da menininha, que abriu os olhos e as narinas. A enfermeira sumira, a sogra saíra, os ruídos cessaram, a dor amainava aos poucos. O leite escorria da boca da criancinha, agarrada em seu peito, quente, ávida. Eu lhe dou o meu corpo, o meu leite, serei seu alimento único por seis meses. Depois, virão outras comidas, outras pessoas. Depois de seis meses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicada no Anjos de Prata em 06/06/05&lt;br /&gt; &lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111903135837473067?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111903135837473067/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111903135837473067' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111903135837473067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111903135837473067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/intimidade.html' title='Intimidade'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13752481.post-111903069536306850</id><published>2005-06-17T14:49:00.000-03:00</published><updated>2006-10-24T09:42:45.700-03:00</updated><title type='text'>Claridade</title><content type='html'>Não é que eu tenha medo do escuro, mas fica tudo um breu e se a gente tropeça quando levanta para ir ao banheiro durante a noite? Os piores acidentes são dentro de casa, lembra da sua avó, que caiu da cadeira, quer dizer, a cadeira quebrou com o peso dela e acabou que ela quebrou o cóccix e o fêmur. O Doutor Radamés, um santo, muito bom médico, muito boa pessoa, acudiu rapidinho e, se não fosse por ele, aqueles ortopedistas do Miguel Couto engessavam a perna dela de qualquer maneira. Ele botou o fêmur da sua avó no lugar, ela uivou e desmaiou. Depois é que chegou a ambulância e o Doutor Radamés acompanhou toda a cirurgia do cóccix da sua avó. Ficou direitinho. O fêmur é que não grudou direito, mas isso porque o seu pai insistiu em levar pra hospital público. Lógico, não era a mãe dele, né? Era a minha mãe, ele queria mais era que ela morresse logo. Lembra quando ela voltou pra casa, meio abobada? O Doutor Radamés disse que acontece com quem faz operação na terceira idade, queima muitos neurônios por causa da anestesia.&lt;br /&gt;Então, minha filha, eu não quero ficar sem neurônios, dando trabalho para você igual sua avó e depois, seu pai também, porque a Justiça Divina atrasa, mas não falha. Ele também caiu em casa, escorregou no chão da cozinha que ele mesmo molhou. Foi ele, sim, que tinha mania de beber água antes de dormir e deixar tudo escuro para economizar na conta de luz. Encheu a garrafa e deixou cair um pouco de água no chão, porque já andava tremendo muito, com Mal de Parkinson. Ele dizia que enxergava igual a gato. Gato também fica cego. O tombo que ele levou foi horroroso, daqui só ouvi o estrondo. Quando cheguei na cozinha, ele estava todo esticado, não queria que eu o ajudasse a se levantar, lembra? Teve que vir o Doutor Radamés outra vez, ele é um santo, chegou a chamar a ambulância, mas só por besteira do seu pai, sempre apavorado com bobagem. Tinha quebrado um braço e uma vértebra, mas não aleijou, não. Foi é me dar mais trabalho que nunca! Isso tudo por quê? Porque não queria acender luz, tinha que ficar tudo no escuro.&lt;br /&gt;Quando éramos moços, ele já tinha essa mania de escurinho. Tudo era pretexto para apagar as lâmpadas, acender velas e ficar à meia-luz. Cantava um bolero que falava na tal da meia-luz, ficava me abraçando e querendo dançar, mas eu sabia que a vontade dele era outra. Seu pai foi muito assanhado, minha filha. Depois de velho, não, mas quando moço! Olha que eu vivia apavorada, com medo de pegar mais filho ainda, até que veio a pílula e depois eu tive o mioma, tirei tudo, graças a Deus. Seu pai também foi-se aquietando, ainda bem que não existia essa desgraça do Viagra, que deixa os velhos no maior fogaréu. Você soube que o Antoninho, da Cleuza, arrumou amante moça e deixou a casa? Trinta e cinco anos de casamento, como é que pode tanta irresponsabilidade, meu Deus? E você fique bem alerta, minha filha, seu marido é moço, é bonito, tem muita mulher vigarista dando sopa por aí.&lt;br /&gt;Agora, faz este favorzinho pra sua mãe, filhinha. Eu sempre deixava uma luzinha pequenina na sua cabeceira, agarrada na tomada, lembra? Era rosada, quase salmão. Promete que compra uma dessas lampadazinhas pra botar no meu quarto, promete? Tem umas lindas, com forma de anjinho. Enquanto não tem a lâmpada, vou deixar o abajur da cabeceira aceso, tá bom? E a luz do corredor também. Deus me livre cair de noite e dar trabalho pra você, que já é tão sacrificada, minha filha, com as crianças, com tanto trabalho, com marido exigente, porque ele é ótimo, mas é exigente, não é, minha querida? O Doutor Radamés mora aqui do lado, mas eu tenho medo. Nem quero incomodar o Doutor Radamés com meus achaques de velha. Ele também está ficando velho. Era tão bonito quando moço, minha filha. Eu até gostava dele, mas sua avó não queria, de jeito nenhum, porque sabia que a mãe dele era mulata. O seu pai, ela não percebeu que era meio amulatado também, sabe por quê? Porque ele só aparecia em casa no fim da tarde, na hora do lusco-fusco, quando sua avó enxergava muito pouco. Depois, vinha aquela história dele de ficar à meia-luz, dizendo que sentia calor com as lâmpadas acesas. Tudo conversa porque sabia que minha mãe era um pouco racista. Acho que ela nunca descobriu que ele era meio preto, vocês saíram bem alvos. Imagina, ela saber que tinha netos negros? Morria antes de quebrar o fêmur, coitada!&lt;br /&gt;E eu tive que entrar nessas mentirinhas com o seu pai, que eu acho, sabe, minha filha, que acabou se acostumando com a escuridão. No princípio foi para esconder a cor da sua avó, mas depois ele resolveu esconder-se dele mesmo. Como se eu ligasse pra isso. Eu já tinha gostado antes do Doutor Radamés, coitado, que nunca se casou. Agora, é tarde demais.&lt;br /&gt;Não apaga tudo, não, tá bom, querida? Você é tão boa, minha querida. Vem dar um beijo na Mamãe, vem. Apaga a luz de cima, porque eu também detesto claridade excessiva. Mas deixa a luz do corredor ligada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicado no site &lt;a href="http://www.anjosdeprata.com.br"&gt;www.anjosdeprata.com.br&lt;/a&gt; , em 23/05/05&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13752481-111903069536306850?l=webliterata.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://webliterata.blogspot.com/feeds/111903069536306850/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13752481&amp;postID=111903069536306850' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111903069536306850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13752481/posts/default/111903069536306850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://webliterata.blogspot.com/2005/06/claridade.html' title='Claridade'/><author><name>Olga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16759870269421701719</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_mWPAe_q6h-M/Rym5ub2JtlI/AAAAAAAAAm0/PjnBXhRTf7s/s400/Reggae_Breeze.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
